No clássico contra o São Paulo, neste domingo, o Corinthians não estreou um camisa nove, não anunciou uma contratação, não revelou um cria de Cotia. Estreou uma campanha publicitária com a Esportes da Sorte, batizada com o slogan Torça como um corinthiano. Traduzindo do marketês para o português dos mortais, o clube pegou a frase mais identitária possível, aquela que o torcedor tatua no braço e grita no velório do avô, e a alugou para uma empresa cuja receita depende de gente perdendo dinheiro. Romântico, não?
O esquema é simples e tem a elegância de um conto do vigário com terno italiano. A casa de apostas paga milhões ao clube. O clube empresta o escudo, a alma, o coro do Pavarotti corintiano e a memória dos avós que choraram em 77. Em troca, a empresa recebe acesso a um exército de fanáticos previamente convencidos de que pertencer ao bando é virtude e que qualquer gesto, inclusive apertar o botão verde do app, é forma legítima de devoção. O torcedor entra achando que está honrando a Fiel e sai contribuindo para a margem operacional de um cassino sem porta giratória.
Convém lembrar de onde vem esse dinheiro que tanto reluz nos balanços dos clubes brasileiros. Vem do bolso de um sujeito que ganha três salários mínimos, dirige aplicativo até as duas da manhã, e foi convencido pela publicidade onipresente de que apostar no escanteio do segundo tempo é estratégia de investimento. As bets não criam riqueza, apenas a redistribuem, e a direção do fluxo é sempre a mesma: muitos perdem pouco, alguns perdem tudo, e uma minoria muito bem vestida embolsa a diferença. O clube, antigamente o lugar onde o operário esquecia da fábrica no domingo, agora é o intermediário que vende o operário de volta para a fábrica, só que digital, vinte e quatro horas, sem CLT.
Há uma ironia deliciosa em chamar isso de torcer como um corinthiano. Torcer como um corinthiano era, na mitologia do próprio clube, resistir, sofrer, esperar, sustentar com a presença física aquilo em que o mundo não acreditava. Era um exercício quase estoico de fidelidade improdutiva. Agora foi ressignificado para significar baixar um aplicativo, cadastrar o CPF, fazer o primeiro depósito e receber bônus de boas-vindas. A camisa que outrora simbolizava bairro, fábrica e identidade virou outdoor ambulante de uma indústria que prospera quando o usuário do outdoor sai de casa achando que vai ganhar e volta sem dinheiro do busão.
E onde está o Estado nessa história, esse tutor zeloso que regula até o tamanho do biscoito recheado em nome da saúde pública? Está aplaudindo. Porque tributa. Porque arrecada. Porque o mesmo legislador que faz comício sobre os males do jogo aprova licenças, assina decretos e recebe contribuições, oficiais ou nem tanto, dessas mesmas empresas. Quando todos os interessados ganham, dos clubes aos políticos passando pelas operadoras, e só o sujeito que apostou perde, isso não é coincidência, é arquitetura. O premissa é que apostar é entretenimento, a constatação é que vícios em massa estão arruinando famílias inteiras, e a conclusão lógica, que ninguém quer enunciar, é que o entretenimento dos pobres está financiando o conforto dos que já estavam confortáveis.
Então pergunte de novo, com calma, sem o calor do hino. Quem paga essa campanha bonitinha exibida no clássico? Paga o pai de família que vai apostar mil reais achando que vai pagar a conta de luz e volta devendo dois mil. Quem recebe? Recebe o clube, recebe a casa de apostas, recebe a agência de publicidade, recebe a Receita Federal, recebe o deputado patrocinado, recebe todo mundo, menos o trouxa do manto. Torça como um corinthiano, sim, mas leia o regulamento da promoção antes. A casa, como sempre, ganha. E desta vez a casa está vestida com a sua camisa.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.