A cena se repete com a pontualidade de um relógio suíço avariado. Uma farmacêutica sem receita aprovada em escala comercial sobe ao palco de uma conferência de banco de investimento, exibe moléculas com nomes que parecem senhas de wi-fi, projeta gráficos ascendentes e sai com a cotação empurrada para cima. A Corvus Pharmaceuticals fez exatamente isso no evento da Cantor Fitzgerald, apresentando seu pipeline como quem vende bilhete de loteria embrulhado em jaleco branco. O detalhe que ninguém sublinha é simples, mas devastador, um pipeline não é um produto, é uma promessa. E promessa, no mercado de capitais, é a moeda de troca mais inflacionada do planeta.
Olha, o negócio de biotecnologia clínica opera sob uma lógica peculiar, a empresa queima caixa por uma década, dilui acionista atrás de acionista em rodadas sucessivas, e vive da fé de que uma das apostas do pipeline vai transformar prejuízo acumulado em jackpot. Enquanto a molécula não chega à fase III com resultado inequívoco, o que se comercializa não é ciência, é expectativa. E expectativa, meu caro leitor, precisa ser realimentada constantemente, daí a peregrinação por conferências de bancos, os press releases carregados de advérbios promissores, o vocabulário técnico que serve menos para informar e mais para intimidar quem faria a pergunta óbvia, quando é que isso vira dinheiro?
Siga o dinheiro e você entenderá o teatro. A Cantor Fitzgerald não organiza conferência de biotech por caridade científica, ela ganha em taxa de assessoria, em colocação de novas emissões, em corretagem, em relacionamento com fundos que precisam de história para contar aos cotistas. O executivo da Corvus não sobe ao palco para educar humanidade, sobe para sustentar valuation e viabilizar a próxima rodada de captação antes que o caixa acabe. E o analista sell-side que emite o relatório entusiasmado depois do evento também não é neutro, ele trabalha num banco que quer o mandato do próximo follow-on. Todos os incentivos apontam para o mesmo lugar, alimentar o ciclo, adiar o teste da realidade, empurrar a validação para o próximo trimestre.
Quer dizer, existe algo profundamente instrutivo nesse arranjo, e é o contraste com o que a mesma indústria produz quando opera sem o subsídio implícito da complacência regulatória e do dinheiro fácil. A expansão monetária das últimas duas décadas encheu de liquidez os fundos que financiam biotechs pré-receita, e essa liquidez artificial permite que centenas de empresas sem produto sobrevivam anos consumindo poupança alheia. Num ambiente de juros verdadeiramente restritivos, metade desse pipeline evaporaria em dezoito meses, e o capital iria para quem sabe transformar molécula em bula, bula em prescrição, prescrição em fluxo de caixa. A seleção natural do mercado só funciona quando o mercado não é anestesiado por banco central generoso.
Nada disso significa que a Corvus seja fraude, atenção, significa apenas que o leitor precisa aprender a distinguir a substância da encenação. Uma empresa que apresenta dados clínicos revisados por pares, com endpoint primário atingido em ensaio randomizado controlado, comunica realidade. Uma empresa que apresenta apostas em pipeline num evento patrocinado por banco comunica desejo. Os dois discursos usam as mesmas palavras, jalecos, jargões e slides, mas dizem coisas opostas. Confundir os dois é o pedágio que o investidor amador paga para financiar o jantar de gala do executivo e a comissão do corretor.
Me diz uma coisa, quando foi a última vez que você viu uma dessas empresas subir ao palco para anunciar que abandonou três programas do pipeline por falta de eficácia e devolveu o caixa remanescente aos acionistas? Pois é. O palco existe para as apostas, nunca para o funeral delas. E enquanto o público bater palma para a promessa e ignorar o histórico, o teatro continuará em cartaz, com nova temporada anunciada a cada trimestre fiscal.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.