Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, admitiu perante uma Comissão Parlamentar de Inquérito que organizava festas. O relatório final da CPI do Crime Organizado, apresentado pelo senador Alessandro Vieira nesta terça-feira, vai além da admissão e aponta indícios de exploração sexual nesses eventos. Até aqui, o escândalo moral. Mas moral é cortina de fumaça quando o que está em jogo é estrutura de poder. A pergunta correta não é o que acontecia nessas festas, é quem estava nelas e o que se negociava entre uma taça e outra.

O sistema financeiro brasileiro opera sob uma ilusão cuidadosamente cultivada: a de que existe separação real entre o dinheiro dos bancos e o poder político que regula esses mesmos bancos. Não existe. Nunca existiu. O Banco Master não cresceu no vácuo. Cresceu comprando precatórios, operando com FIDCs de altíssimo risco, captando via CDBs cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos, que é, no fim das contas, uma socialização de prejuízos bancada pelo sistema inteiro. Quando um banqueiro desse calibre organiza festas suntuosas, ele não está gastando dinheiro; está investindo. A festa é o lobby que não aparece no CNPJ. A champanhe é o lubrificante de decisões que serão tomadas em gabinetes com ar de solenidade republicana semanas depois.

Há um padrão que se repete com precisão quase cômica na história recente do Brasil. Toda vez que um operador financeiro atinge certo nível de promiscuidade com o Estado, a festa vira instrumento. Não é novidade. É método. O que a CPI encontrou não é um desvio de conduta pessoal de um empresário excêntrico; é a ponta visível de um arranjo onde capital financeiro, influência política e controle sobre pessoas se entrelaçam numa cadeia que beneficia todos os envolvidos, menos, evidentemente, quem está sendo explorado. A exploração sexual, se confirmada, não é acidente colateral da riqueza; é expressão bruta de um poder que se sabe impune porque conhece, por nome e sobrenome, quem deveria puni-lo.

Observe a mecânica: o Banco Master operava sob supervisão do Banco Central. O Banco Central é uma autarquia federal cujos diretores são indicados por políticos. Os políticos dependem de financiamento de campanha, de apoio midiático, de relações que se constroem exatamente em ambientes como os que Vorcaro proporcionava. Feche o circuito. O regulador é comensal do regulado. O fiscal janta na casa do fiscalizado. E quando a CPI finalmente chega, o que encontra são "indícios", palavra mágica que permite a indignação pública sem a consequência concreta. Indício é a versão parlamentar de "sabemos de tudo, mas não faremos nada que incomode quem realmente importa".

O contribuinte brasileiro, esse financiador involuntário de toda a engenharia, deveria prestar atenção não nas festas, mas no que veio antes e no que virá depois. Antes: um banco que cresceu de forma acelerada operando nos limites do que a regulação permite, com o FGC garantindo que, se tudo desmoronasse, a conta seria repartida. Depois: um relatório de CPI que será arquivado com pompa, gerará manchetes por uma semana, alimentará a indignação seletiva das redes sociais e não produzirá uma única condenação relevante. Porque o sistema não pune quem o alimenta. O sistema protege quem conhece suas engrenagens por dentro. Vorcaro não é um corpo estranho no organismo do poder brasileiro; é um sintoma perfeitamente lógico de um arranjo onde dinheiro público, regulação capturada e impunidade estrutural produzem, inevitavelmente, exatamente isto: banqueiros que dão festas onde seres humanos são tratados como mercadoria, sob o olhar distraído de quem deveria estar vigiando.

Quem pagou as festas? Siga o dinheiro. Quem frequentou? Siga o poder. Quem será punido? Ninguém que você reconheça na foto.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.