O Cristália demitiu funcionários. Abriu auditoria. Prometeu reestruturação. Violou o código de ética interno, disseram os comunicados. Lindo. Impecável. O único problema com esse espetáculo de higiene corporativa é que ele é exatamente isso: um espetáculo. Quando uma empresa do porte do Cristália, laboratório que fatura bilhões com contratos públicos e concessões regulatórias do Estado brasileiro, descobre que seus funcionários estavam pagando influenciadores digitais para promover produtos farmacêuticos, a pergunta que nenhum jornalista de assessoria vai fazer é a óbvia: quem aprovou o orçamento? Porque campanha com influenciador não sai do bolso de analista de marketing júnior. Sai de verba aprovada em reunião, com planilha, com meta, com apresentação em PowerPoint para diretoria.

A mecânica é velha como o Império Romano tardio, onde o imperador queimava um prefeito provinciano toda vez que o povo ficava furioso com o fisco. Fulano exorbitou. Fulano foi além do que manda a ética. Fulano não representava os valores da instituição. E a instituição, claro, permanece intacta, redimida pelo sacrifício do subalterno, pronta para o próximo ciclo. O que muda de nome a cada escândalo não é o sistema, é o bode expiatório. Os funcionários demitidos hoje eram, até anteontem, executores fiéis de uma estratégia que alguém acima deles imaginou, aprovou e financiou. A demissão não é punição pelo erro: é a eliminação da prova humana mais próxima do erro.

Vale parar um segundo para entender o que é, de fato, pagar influenciador para falar de medicamento. Não é apenas uma questão de ética publicitária ou de código interno de conduta corporativa, como o comunicado da empresa quer fazer parecer. É uma questão de saúde pública, regulação sanitária e, no caso de um laboratório com portfólio tão extenso quanto o do Cristália, de confiança sistêmica no produto farmacêutico. Quando uma pessoa com dois milhões de seguidores recomenda um remédio porque recebeu para isso, e não porque entende de farmacologia, o dano não é abstrato. Está no consultório do médico que vai atender o paciente que se automedicou baseado num reel de trinta segundos. Está no pronto-socorro. Está na bula que ninguém leu porque o influenciador disse que o produto era "incrível" e "sem efeitos colaterais". A propaganda mentirosa de produto farmacêutico não é travessura de marketing: é risco sanitário com potencial letal, e o Cristália sabe disso melhor do que qualquer um, porque está nesse setor há décadas.

Mas o escândalo corporativo é apenas a casca visível de algo estruturalmente mais podre. O Cristália existe, prospera e domina fatias enormes do mercado farmacêutico brasileiro em boa parte porque o Estado brasileiro ergueu ao redor desse setor uma fortaleza regulatória que afasta concorrência, encarece medicamentos genéricos e protege os grandes laboratórios nacionais de qualquer competição real. A Anvisa, os processos de registro, as exigências que custam fortunas para serem cumpridas: tudo isso funciona, na prática, como uma barreira de entrada que pequenos laboratórios não conseguem transpor, enquanto os grandes já têm departamentos jurídicos especializados para navegar o labirinto. Quem paga essa conta? O paciente. Quem lucra? O laboratório. E quando o laboratório escorrega numa estratégia de marketing ilícita, o Estado que o protege durante décadas some da equação, e o comunicado fala em "código de ética interno" como se o problema fosse de civilidade empresarial, não de captura regulatória e arrogância de monopólio.

A auditoria anunciada merece o ceticismo que toda auditoria interna merece, que é aproximadamente o mesmo ceticismo que se deve ter quando o réu anuncia que vai investigar a si mesmo. Uma auditoria séria sobre práticas de marketing farmacológico no Brasil exigiria, no mínimo, que a Anvisa e o Conselho Federal de Farmácia fossem envolvidos, que os influenciadores contratados fossem identificados publicamente, que os contratos fossem transparentes e que os produtos promovidos fossem listados com seus respectivos impactos clínicos. Nada disso está na nota oficial. O que está na nota oficial é uma frase bem construída sobre valores, uma menção a reestruturação e a garantia implícita de que o assunto vai morrer na segunda página da semana que vem. É uma aposta razoável. No Brasil, o escândalo corporativo tem prazo de validade de notícia: dura enquanto não aparecer o próximo. Depois disso, a empresa segue faturando, os contratos públicos seguem fluindo e os novos funcionários de marketing aprendem a lição dos demitidos: façam o que mandam, mas não deixem rastro.

O que o Cristália fez, no fundo, foi o mesmo que qualquer instituição faz quando é apanhada fazendo o que sempre fez: produziu uma narrativa de exceção. A conduta foi pontual. Os envolvidos foram identificados e punidos. A empresa está comprometida com a transparência. Cada uma dessas frases é uma mentira com verniz de responsabilidade. A conduta não é pontual quando exige orçamento, aprovação e execução coordenada. Os envolvidos não foram punidos: foram silenciados. E a transparência de uma empresa que só abre auditoria depois de ser exposta pela imprensa não é compromisso, é contenção de dano. A diferença importa. Não para a empresa, que sabe muito bem o que está fazendo. Para o público, que merece entender que o ritual da demissão simbólica não é justiça corporativa: é a arte milenar de sacrificar pouco para proteger muito.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.