A Hungria acaba de entregar uma lição que deveria estar tatuada na testa de todo candidato a salvador da pátria. Viktor Orbán, depois de dezesseis anos moldando leis eleitorais, capturando judiciário, domesticando imprensa e redesenhando distritos como quem remonta um quebra-cabeça para sempre dar a mesma figura, foi derrotado. E não foi derrotado por um opositor vindo das hostes liberais que ele passou a carreira inteira demonizando. Foi derrotado por Péter Magyar, cria do próprio sistema, ex-funcionário do regime, homem que conhecia os corredores por dentro porque andou neles de terno e gravata. A traição, no vocabulário dos césares, sempre veio de casa. Bruto era filho espiritual. Judas comia na mesma mesa. O golpe vem de quem sabe onde fica o rim.

O erro de cálculo é delicioso na sua banalidade. Orbán acreditou, como todo autocrata acredita, que bastava eliminar a oposição formal para eliminar a oposição real. Comprou jornais, cooptou universidades, distribuiu concessões de mídia para compadres, encheu estatais de afilhados, transformou o Fidesz numa máquina de empregos e favores que arrastava consigo uma clientela fiel por dependência material. O raciocínio é sempre o mesmo: se todo mundo come do meu prato, ninguém me morde a mão. Funcionou por uma década e meia. Funciona sempre, até o dia em que deixa de funcionar. E o dia em que deixa de funcionar chega pontualmente, porque sistema que se sustenta em privilégio cria, por definição, uma multidão de excluídos do privilégio, e basta um sujeito articulado para transformar essa multidão em voto.

Siga o dinheiro e você encontra a explicação inteira. Quem pagou a festa húngara dos últimos anos? O contribuinte, como sempre. Quem recebeu? A rede de empresários ligados ao governo, os fornecedores preferenciais, os proprietários de jornais amigos, os prefeitos que marchavam no compasso, a casta que crescia em volta do poder como musgo em parede úmida. Orbán chamou isso de democracia iliberal, nome solene para um arranjo que em qualquer esquina do terceiro mundo se chama pelo seu nome verdadeiro: fisiologismo. A diferença entre um regime iliberal e uma república de compadres é apenas o tamanho da fonte usada no diploma universitário de quem escreve os comunicados oficiais.

O detalhe saboroso é que Magyar não veio do clube dos liberais cosmopolitas que Orbán convenceu seus eleitores a odiar. Veio de dentro, viu os contratos por trás da cortina, farejou o cheiro de dinheiro trocando de mão e resolveu transformar o conhecimento privilegiado em carreira política. Isso muda tudo no jogo retórico. Não dá para chamar de agente de Bruxelas quem foi seu próprio secretário. Não dá para acusar de globalista quem assinava os memorandos internos. O populista vive da fabricação de um inimigo externo, e quando o inimigo aparece vestido com o uniforme da tropa, o feitiço desmancha. A máquina de propaganda engasga. O eleitor, que não é idiota embora os profissionais da política insistam em tratá-lo como tal, percebe o truque.

Há uma lição universal aqui, e ela não tem nada de húngara. Todo governo que se imagina eterno termina devorado pela sua própria estrutura de favorecimento. A lógica é inevitável, quase matemática. Concentre poder, distribua privilégios, sufoque concorrência política, e você cria simultaneamente duas coisas: uma elite dependente que só sabe mamar na teta estatal e uma massa crescente de ressentidos que nada têm a perder. O tempo faz o resto. Premissa maior, concentração gera ressentimento. Premissa menor, ressentimento acumulado busca representação. Conclusão, mais cedo ou mais tarde, aparece alguém para capitalizar a conta. O jogo é velho como a política, e só não enxerga quem está bêbado de vitória.

Que sirva de aviso aos admiradores tupiniquins do modelo Orbán, aqueles que passaram anos olhando para Budapeste com ar de quem encontrou finalmente o manual da salvação nacional. O manual existe, sim, e está escrito com letras garrafais na história húngara desta semana: poder absoluto corrompe absolutamente, inclusive a inteligência estratégica de quem o exerce. Quem planta eleição amarrada colhe traidor vindo de casa. Quem transforma Estado em cabide termina pendurado no próprio cabide. E o contribuinte, esse senhor esquecido que pagou a conta do espetáculo inteiro, fica com a tarefa melancólica de arrumar a bagunça enquanto os protagonistas passam a escrever memórias e a dar palestras sobre liderança. Quem paga, perde. Quem recebe, um dia também perde. Só o cemitério dos impérios continua crescendo.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.