Donald Trump ameaçou varrer a civilização iraniana da face da Terra. Os mercados globais responderam com a mesma indiferença de quem ouve o vizinho brigar com a esposa pela décima vez na semana: já sabem que não vai acontecer nada de definitivo, que a gritaria vai passar e que amanhã os dois estarão tomando café juntos. Esta é a tragédia política do momento, e não é pequena: a maior potência militar do planeta transformou seu comandante em chefe num fenômeno de fadiga informacional. Quando uma ameaça de extermínio de uma civilização inteira não move um ponto percentual relevante no índice de volatilidade, algo profundo e perturbador aconteceu com a arquitetura de credibilidade que sustenta a ordem mundial.
Há uma lógica implacável nisso que ninguém quer nomear com a clareza que o assunto merece. A credibilidade de uma ameaça depende, estruturalmente, de três pilares: a capacidade de executá-la, a vontade demonstrada de fazê-lo e a consistência histórica entre discurso e ação. Trump possui o primeiro pilar em abundância absurda, o segundo em quantidade industrial de palavras e o terceiro em déficit crônico. Quando um governante ameaça e não cumpre, ameaça e não cumpre, ameaça e assina um acordo, ameaça e recua por um tuíte do mercado, ele não está exercendo diplomacia pela força: está destruindo metodicamente o único ativo que faz a força valer alguma coisa, que é a certeza de que ela será usada. Os romanos chamavam isso de auctoritas. Trump está gastando a auctoritas americana como um apostador compulsivo gasta a herança da avó.
Mas o mais grave, o ponto que o noticiário cotidiano insiste em sepultar sob a avalanche de declarações performáticas, é o risco estrutural do dólar. O dólar não é uma moeda como as outras. É o eixo gravitacional do sistema financeiro global desde Bretton Woods, sustentado não por ouro, não por reservas tangíveis em sentido clássico, mas por algo ainda mais frágil e ainda mais poderoso: a confiança irrestrita na estabilidade institucional americana. Cada vez que o governo americano usa o dólar como arma de política externa, cada vez que impõe sanções unilaterais, cada vez que ameaça parceiros comerciais com tarifas punitivas por capricho político de uma manhã de domingo, ele está corroendo a base desse sistema. Não dramaticamente, não de uma vez, mas como água que goteja sobre pedra: invisível no dia a dia, devastadora no prazo certo.
A China entendeu isso antes de qualquer analista ocidental admitir publicamente. A acumulação de ouro pelo Banco Popular da China, os acordos bilaterais em yuan, a construção pacienciosa de um sistema alternativo de pagamentos internacionais: nada disso é paranoia geopolítica ou retórica de guerra fria reaquecida. É a resposta racional de um ator que leu a trajetória do dólar com mais atenção do que Washington leu a própria. Quando o rei das moedas começa a ser usado como porrete diplomático, os comerciantes mais inteligentes do bazar começam discretamente a procurar outra moeda de troca. O processo é lento, não é linear, mas é inexorável, e o "efeito Trump" está acelerando uma dinâmica que levaria décadas em circunstâncias normais.
O que o Crusoé capturou com precisão, mesmo que sem desenvolver até o fim, é essa dupla exposição do momento: a ameaça bélica que não assusta mais e o risco monetário que assusta de menos. São dois sintomas do mesmo diagnóstico. Uma potência que condiciona sua credibilidade militar ao humor matinal de seu líder e condiciona a estabilidade de sua moeda reserva às conveniências de política interna está, em termos práticos, fazendo a transição de império para potência comum, com todos os rituais de grandeza ainda em cartaz e a substância já em processo de dissolução. O espetáculo continua, os holofotes estão acesos, o figurino é magnífico. O problema é que o palco está cedendo pelo lado de baixo, onde ninguém olha.
O que resta ao observador honesto é resistir à tentação siamesa dos nossos tempos: a de tomar o ruído por realidade e o silêncio por tranquilidade. Trump ameaça e o mercado não treme, mas isso não significa que não há nada a temer. Significa, com precisão cirúrgica, que o medo migrou de endereço. Saiu das declarações e foi morar nos fundamentos. E fundamentos, diferente de tuítes, não se revertem com uma coletiva de imprensa.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.