Os Estados Unidos detalharam nesta segunda-feira as regras do seu bloqueio naval no Estreito de Ormuz, aquele gargalo por onde escoa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Donald Trump anunciou o controle sobre o acesso aos portos iranianos com a solenidade de quem defende a civilização, mas o que se vê ali é a coisa mais velha do mundo: um império posicionando seus navios na rota comercial alheia e chamando isso de segurança. Segurança de quem, exatamente? Porque o iraniano comum que já vive sob sanções há décadas não ficou mais seguro. O contribuinte americano que financia a Quinta Frota tampouco. Quem ficou mais confortável foi um punhado muito específico de produtores de petróleo e de operadores do mercado financeiro de commodities que, por coincidência cósmica, sempre lucram quando o Estreito ameaça fechar.
A lógica é tão antiga quanto os bloqueios britânicos contra Napoleão. Você não precisa invadir um país para destruí-lo, basta estrangular seu comércio. O bloqueio naval é o ato de guerra mais covarde que existe, porque permite ao agressor posar de pacífico enquanto sufoca uma nação inteira. Os ingleses fizeram isso com a Alemanha em 1914, matando de fome centenas de milhares de civis antes que um único tanque cruzasse o Reno, e depois escreveram nos livros de história que eram os mocinhos. O padrão se repete com precisão quase litúrgica: primeiro o bloqueio, depois a narrativa de que o bloqueado é o agressor, e por fim, quando a situação explode, o coro dos indignados perguntando como foi que chegamos a esse ponto. Chegamos porque alguém quis chegar.
Siga o dinheiro, sempre. Quando o Estreito de Ormuz aparece nos jornais, o barril sobe. Quando o barril sobe, quem exporta petróleo fora do alcance do bloqueio sorri. Os produtores americanos de shale oil sorriem. A Arábia Saudita sorri. O mercado futuro de petróleo, aquele cassino trilionário onde se aposta no sofrimento alheio com a frieza de um contador, sorri. E o sujeito que abastece o carro em Goiânia ou em Ohio paga a conta sem saber por quê. O bloqueio é apresentado como medida contra o programa nuclear iraniano, contra a instabilidade regional, contra o terrorismo, contra o que for necessário para justificar o injustificável. Mas a pergunta que nenhum almirante responde é simples: se o objetivo é conter o Irã, por que a medida escolhida é precisamente aquela que enriquece seus concorrentes diretos no mercado de energia? A resposta está no próprio silêncio.
Há uma obscenidade particular em um governo que se diz defensor do livre mercado usar a maior marinha de guerra da história para decidir quem pode e quem não pode comercializar petróleo. É como um árbitro que entra em campo com a camisa de um dos times e exige que você respeite o apito. O livre comércio, aquela coisa bonita que se invoca em discursos de posse e cúpulas do G7, só vale enquanto favorece quem já está por cima. No momento em que um país qualquer tenta vender sua própria commodity sem pedir licença ao Departamento de Estado, descobre que liberdade comercial era apenas um conceito decorativo. O Estreito de Ormuz não está sendo bloqueado para proteger ninguém. Está sendo bloqueado porque pode ser bloqueado, e porque quem tem porta-aviões não precisa de argumentos.
O contribuinte americano, coitado, financia essa frota colossal achando que ela o protege. Ninguém lhe perguntou se queria gastar bilhões para patrulhar um estreito a dez mil quilômetros de sua casa. Ninguém lhe apresentou a conta discriminada: tanto para o combustível dos destroyers, tanto para a manutenção dos caças, tanto para os contratos com empreiteiras de defesa cujos lobistas jantam toda semana com senadores. O dinheiro sai do bolso dele, passa pelo Pentágono, e chega nos balanços trimestrais de corporações que, por coincidência, doam generosamente para campanhas eleitorais dos dois partidos. É um ciclo fechado, perfeito, quase elegante na sua obscenidade. O povo paga a guerra, a guerra valoriza a commodity, a commodity enriquece o cartel, o cartel financia o político, o político autoriza a guerra. Quem achar que isso é teoria conspiratória, basta olhar os números. Eles não mentem, diferente dos comunicados oficiais.
No fim, o Estreito de Ormuz é só mais um capítulo daquela velha história que se repete desde que o primeiro império descobriu que controlar rotas comerciais é mais lucrativo do que produzir qualquer coisa. O resto é cenografia: as coletivas de imprensa, os mapas bonitos na televisão, os analistas de think tanks explicando por que desta vez é diferente. Nunca é diferente. A pergunta que importa continua sendo a mesma de sempre, a única que o poder de verdade jamais quer responder: quem paga e quem recebe?
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.