A declaração é cirúrgica na sua brutalidade casual: cento e cinquenta e oito embarcações iranianas destruídas no Caribe como se fossem piratas de segunda categoria, e agora a ameaça de exportar o método para o Golfo Pérsico. O presidente americano fala como quem descreve uma operação de dedetização, não o afundamento de uma marinha de guerra soberana. E o mundo ouve, arqueia a sobrancelha, e passa para a próxima notícia. Isso, por si só, já seria suficiente para uma análise séria. Mas a pergunta correta não é "Trump está blefando?". A pergunta correta é a de sempre: quem paga essa conta e quem embolsa o lucro?
O Golfo Pérsico não é um cenário de aventura. É a artéria por onde passa aproximadamente um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Quem controla o estreito de Ormuz, controla o preço do barril em Tóquio, em Berlim e em São Paulo. Isso não é geopolítica romanesca, é aritmética brutal. Cada vez que a tensão sobe naquela região, o barril sobe junto, e o portfólio de determinadas empresas de exploração e defesa sobe também. O belicismo não é gratuito, nunca foi. Por trás de cada ameaça presidencial existe uma cadeia de beneficiários com escritórios em Washington, Houston e Riad. A guerra, ou mesmo a sua sombra, é um negócio extraordinariamente lucrativo para quem vende os instrumentos dela.
Existe uma operação retórica fascinante acontecendo aqui, e ela merece ser destrinchada com precisão. A equiparação entre a Marinha iraniana e narcotraficantes caribenhos não é acidental. É uma degradação deliberada do inimigo, uma técnica tão antiga quanto os próprios impérios. Roma chamava os cartagineses de bárbaros antes de arrasar Cartago. Os britânicos descreviam os bôeres como selvagens antes de inventar os campos de concentração na África do Sul. Reduzir o adversário à categoria de criminoso comum serve a um propósito específico: tornar moralmente palatável aquilo que de outra forma exigiria debate, justificativa e, sobretudo, declaração de guerra formal. Se você afunda traficantes, é herói. Se você afunda uma marinha soberana, é uma coisa mais complicada. A solução elegante é não fazer distinção entre os dois.
O Estado americano, como qualquer Estado que alcança proporção imperial, opera segundo uma lógica que seus próprios cidadãos raramente enxergam com clareza: ele precisa de inimigos para se reproduzir. Não como necessidade filosófica abstrata, mas como necessidade orçamentária concreta. O complexo industrial-militar não é uma teoria conspiratória, é uma linha de balanço. Cada ameaça de Trump ao Irã é lida, nos pregões de Wall Street, como potencial de contrato. Lockheed Martin agradece. Raytheon agradece. Os acionistas dessas empresas, que frequentemente incluem os próprios legisladores que votam os orçamentos de defesa, agradecem com particular entusiasmo. A solenidade da política externa americana tem esse fundo de música, discreto mas constante, de caixa registradora.
O que o episódio revela com nitidez perturbadora é a naturalidade com que a violência monopolizada pelo Estado se apresenta como ordem. Cento e cinquenta e oito embarcações afundadas no Caribe. Não houve tribunal. Não houve processo. Não houve defesa. Houve a decisão unilateral de um aparato burocrático-militar de eliminar o que classificou como ameaça, e o mundo assistiu como se fosse previsão do tempo. Quando um cidadão comum destrói a propriedade alheia, chamamos de crime. Quando o Estado faz o mesmo em escala industrial, chamamos de operação. A diferença não está no ato, está no uniforme de quem o pratica e no imposto que financia o fardamento.
No fim, a pergunta permanece onde sempre esteve. O contribuinte americano paga a conta da esquadra, do combustível, dos mísseis e dos salários. Os cidadãos iranianos pagam com embarcações no fundo do mar. Os cidadãos dos países consumidores de petróleo pagam com o preço da bomba de gasolina quando a tensão encarece o barril. E alguém, em algum andar alto de algum edifício em alguma capital que prefere não aparecer nos comunicados oficiais, embolsa a diferença. Sempre foi assim. O rei está nu, a toga está cara, e quem paga a alfaiataria é você.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.