Onze milhões de cubanos acordaram sem energia, sem geladeira funcionando, sem hospital operando em plena capacidade, sem bomba d'água puxando o líquido para as caixas dos edifícios. A narrativa oficial, repetida em coro pela imprensa que nunca visitou Havana, atribui o colapso à incompetência do regime. É uma meia-verdade conveniente. A outra metade, silenciada com esmero, é que o maior império econômico do planeta mantém há mais de seis décadas um cerco sistemático contra uma ilha que produz menos petróleo do que o estado do Texas gasta em um fim de semana. Cortar peças de reposição para termelétricas envelhecidas e depois espantar-se com o apagão é o equivalente moral de amarrar as pernas de um homem e rir quando ele cai.

O embargo cubano é a política externa mais duradoura, mais previsível e mais fracassada da história americana recente. Nasceu em 1962 com a promessa de derrubar o regime em meses e, agora em 2026, segue sustentando exatamente aquilo que dizia combater. A ditadura cubana adora o embargo, precisa do embargo, respira o embargo. Cada geração de burocratas em Havana ganhou o álibi perfeito para justificar filas, racionamento e miséria. Cada geração de senadores da Flórida ganhou o cabo eleitoral perfeito para arrecadar votos do exílio cubano. Os dois lados vivem simbioticamente das mesmas ruínas. O único que paga a conta é o pescador de Cienfuegos que não consegue congelar a captura do dia.

Sanções são atos de guerra que ninguém tem a coragem de declarar formalmente. Bombardeiam a infraestrutura civil sem estampido, matam crianças em incubadoras sem manchete, quebram farmácias sem imagem chocante. Um bloqueio naval do século dezenove ao menos assumia sua natureza brutal; a versão moderna, embalada em linguagem jurídica sobre licenças da OFAC e restrições secundárias, prefere o requinte da assepsia. O resultado histórico é sempre o mesmo. O povo iraquiano dos anos noventa perdeu meio milhão de crianças menores de cinco anos sob sanções que a secretária de Estado da época considerou publicamente um preço aceitável. A Venezuela viu sua produção elétrica ruir enquanto seus dirigentes engordavam em Miraflores. A ilha caribenha agora repete o roteiro. Muda o cenário, os figurantes e o idioma; a peça é idêntica.

Siga o rastro do dinheiro e a hipocrisia salta aos olhos. O embargo enriquece intermediários que revendem produtos americanos via terceiros países com margens gordas. Enriquece bancos que cobram tarifas absurdas para processar remessas familiares. Enriquece o lobby açucareiro da Flórida, que sempre temeu a volta do concorrente cubano ao mercado. Enriquece consultorias jurídicas de Washington especializadas em navegar o labirinto de exceções e licenças. E enriquece, sobretudo, a nomenklatura de Havana, que controla o pouco dólar que entra e o distribui conforme lealdade partidária. Os únicos empobrecidos, sempre, são os que não têm sobrenome importante em nenhuma das duas capitais.

A retórica humanitária que acompanha o embargo é o cinismo elevado à categoria de arte. Os mesmos governos que financiam bombardeios do Iêmen ao Donbass, que subsidiam ocupações militares em três continentes, que vendem armas para monarquias medievais do Golfo, apresentam-se como defensores dos direitos humanos do cubano comum enquanto sabotam sistematicamente a rede elétrica que aquece a sua mamadeira. É uma piada de mau gosto contada há tanto tempo que ninguém mais ri, mas todos fingem sorrir para não desagradar o anfitrião. A ilha inteira mergulha no escuro e a chancelaria americana emite uma nota lamentando as dificuldades enfrentadas pelo povo irmão. A hipocrisia diplomática atingiu tal maturidade que já se envelhece em barrica de carvalho.

No fim, quem apaga a luz de Cuba não é o cansaço das turbinas soviéticas dos anos oitenta, é a decisão política tomada em salas refrigeradas a milhares de quilômetros de distância, por homens que jamais precisaram acender uma vela para dar banho num filho. O apagão é físico na ilha, mas é moral no Potomac. Sessenta e quatro anos depois, o embargo continua a mesma coisa que sempre foi: uma máquina de fabricar miséria alheia para produzir votos próprios.

Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.