A cena tem sabor de justiça poética, ainda que envenenada. Repórteres credenciados da CNN, da MS NOW e da Politico chegaram aos portões da Casa Branca e descobriram que seus crachás viraram plástico inútil. O ocupante do Salão Oval decidiu, por decreto pessoal, quem merece perguntar e quem merece silêncio. E a mesma classe jornalística que passou anos celebrando desplataformizações, cancelamentos coordenados e a expulsão de vozes incômodas das redes sociais agora descobre, com espanto quase virginal, que a guilhotina discricionária corta para os dois lados. Quem construiu o cadafalso raramente escolhe quem sobe nele.

Convém lembrar que a Casa Branca não é propriedade privada de nenhum presidente, mas um imóvel pago com o dinheiro sequestrado à força do contribuinte americano, o mesmo contribuinte que financia os salários da assessoria de imprensa que agora tranca as portas. O acesso da imprensa àquele prédio nunca foi favor real, foi obrigação republicana travestida de cortesia. Quando o inquilino temporário passa a distribuir credenciais como se fossem convites para festa de aniversário, o que morre não é apenas o jornalismo, é a ficção de que o poder presta contas a alguém além de si mesmo. O trono muda de dono, o cetro continua igual.

Mas a hipocrisia da vítima merece o mesmo bisturi que a arrogância do algoz. Onde estava a CNN quando departamentos federais pressionavam plataformas para silenciar médicos dissidentes durante a pandemia? Onde estava a Politico quando o Departamento de Justiça monitorava jornalistas conservadores? Onde estava a MS NOW quando a máquina federal chamava de desinformação qualquer reportagem inconveniente sobre laptops, laboratórios ou dinheiro suspeito? A imprensa corporativa americana aprendeu a amar o poder desde que o poder amasse de volta, e agora chora porque o namoro terminou com bloqueio no telefone. Quem transformou a redação em púlpito partidário não tem legitimidade para invocar princípios universais quando o jogo vira.

Por baixo do teatro, corre o dinheiro de sempre. Essas três redações vivem de acessos exclusivos, de vazamentos plantados, de coquetéis onde lobistas oferecem furos em troca de cobertura amigável. A credencial da Casa Branca vale ouro no mercado publicitário, sustenta a assinatura premium, justifica o aluguel do escritório em Washington. Cortar o acesso é sabotar o modelo de negócio, e por isso a reação é histérica. Não se trata de defender a República, trata-se de defender a folha de pagamento. O contribuinte médio, aquele que financia tanto o palácio quanto os canais a cabo via impostos indiretos e subsídios cruzados, assiste ao circo sem entender que paga ingresso duas vezes.

A história das repúblicas que naufragaram sempre começa assim, com o Executivo escolhendo quem pode narrar seus atos. Roma imperial mantinha escribas oficiais e proscrevia os incômodos, os regimes bonapartistas do século dezenove aperfeiçoaram o método com selos de aprovação prévia, e cada autocracia moderna, de esquerda ou direita, refinou o expediente com listas negras dissimuladas em critérios técnicos. O detalhe sórdido é que, uma vez normalizada a prerrogativa presidencial de filtrar a imprensa, o próximo ocupante herda o instrumento afiado. Aqueles que hoje aplaudem o veto contra veículos hostis serão amanhã os expulsos quando o pêndulo girar. Sempre gira.

Resta o cidadão comum, esse personagem invisível em todas as narrativas de Washington. Ele não tem credencial, não tem coquetel, não tem lobby. Recebe suas informações filtradas por uma imprensa que serve ao poder quando o poder é amigo e por um governo que serve à imprensa quando a imprensa é bajuladora. Quando os dois brigam, o que sobra é ruído, e no ruído prospera exatamente aquilo que ambos os lados juraram combater, a mentira sistêmica sobre para onde vai o dinheiro, quem morre nas guerras que escolhem contar pela metade, e qual liberdade concreta ainda resta ao sujeito que trabalha, paga imposto e cala. A guerra entre o czar e seus cortesãos nunca liberta o servo, apenas troca o nome do chicote.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.