Os Houthis anunciaram que pouparão navios estrangeiros e mirarão apenas embarcações ligadas à Arábia Saudita, depois de consolidarem posições em torno do Bab el-Mandeb. Traduzindo do diplomatês para o português: um grupo tribal, bombardeado há uma década por uma coalizão armada até os dentes com jatos americanos, mísseis britânicos e inteligência israelense, acaba de sentar na torneira por onde passa cerca de 12% do comércio marítimo mundial e 30% do tráfego de contêineres do planeta. E a resposta ocidental, previsível como relógio suíço, é enviar mais porta-aviões, mais destróieres, mais faturas para o contribuinte de Ohio e de Yorkshire pagarem sem nunca terem ouvido falar em Hodeidah.
Convém lembrar quem construiu esse monstro. A guerra do Iêmen, iniciada em 2015, foi o maior contrato aberto da década para a Lockheed, a Raytheon, a BAE Systems e a Boeing. Riade comprou bombas guiadas por laser aos milhares, e cada criança iemenita morta num ônibus escolar em Dahyan carregou no crânio um número de série made in USA. A ONU estima mais de 370 mil mortos, dois terços por fome e doença provocadas pelo bloqueio naval imposto pela mesma coalizão que agora chora perda de acesso comercial. Bloquearam portos por oito anos e se surpreendem quando o bloqueado, endurecido pela fome e pela cratera, aprende a bloquear de volta. A física da vingança não pede licença ao Departamento de Estado.
Siga o dinheiro e a paisagem clareia. Os prêmios de seguro de guerra para travessias no Mar Vermelho já haviam multiplicado por dez desde 2023; agora vão para a estratosfera, e quem embolsa o prêmio são exatamente os mesmos conglomerados anglo-americanos que financiam think tanks pedindo "resposta firme". A Maersk desvia rotas pelo Cabo da Boa Esperança, acrescenta duas semanas ao trajeto, repassa o custo ao consumidor final, e o supermercado em Belo Horizonte cobra mais caro pelo azeite português sem que ninguém conecte os pontos. Enquanto isso, os estaleiros militares de Bath, no Maine, e de Barrow-in-Furness, na Inglaterra, celebram novos pedidos emergenciais. Toda crise geopolítica é, antes de tudo, um plano de negócios com uniforme.
Há um padrão histórico aqui que os manuais de relações internacionais teimam em ignorar. Impérios marítimos sempre caíram quando perderam o controle dos estreitos. Bizâncio ruiu quando o Bósforo escapou. A hegemonia holandesa evaporou quando os ingleses fecharam o Canal da Mancha às frotas de Amsterdã. A Grã-Bretanha começou a definhar em 1956, quando Nasser nacionalizou Suez e Eisenhower a humilhou publicamente. Bab el-Mandeb, cujo nome árabe significa literalmente "portão das lamentações", pode ser o Suez do século XXI, com uma diferença desconfortável: desta vez, quem controla a chave não é um coronel nacionalista de farda engomada em Cairo, é um movimento descentralizado que sobreviveu a tudo que o Pentágono jogou em cima. Impérios morrem quando descobrem, tarde demais, que gastaram mais para conquistar um deserto do que o deserto valia.
A promessa de poupar navios estrangeiros e mirar apenas o inimigo saudita é, obviamente, uma provocação calculada. Divide a coalizão adversária, isola Riade, oferece álibi a europeus cansados de subsidiar aventuras alheias e envergonha a narrativa oficial de que se trata de terrorismo indiscriminado. É diplomacia de fuzil, feita com a clareza brutal de quem não tem nada a perder porque já perdeu tudo. Enquanto isso, Washington fala em "restaurar a liberdade de navegação", expressão que sempre significou, historicamente, a liberdade das frotas anglo-americanas navegarem cobrando pedágio dos demais. Liberdade de navegação para nós, sanção naval para vocês. O império tem dicionário próprio.
Ninguém neste enredo age por princípio, e o cidadão comum, como sempre, é a variável de ajuste. O pescador do Golfo de Áden que morrerá amanhã sob um drone Reaper não escolheu esta guerra. O trabalhador do porto de Gênova que perderá o emprego porque o contêiner virou proibitivo não votou nesta política. O aposentado americano que verá o preço do combustível subir para financiar mais uma frota permanente no Índico não foi consultado. Do outro lado, o soldado iemenita descalço que morrerá defendendo uma faixa de rocha vulcânica também não redigiu o comunicado que o transformou em alvo. Governos negociam estreitos, mercadores contam lucros, e o resto do mundo paga a conta em sangue, em imposto e em silêncio. O portão das lamentações está aberto de novo, e desta vez talvez não feche.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.