A cena beira o vaudeville. Os Estados Unidos resolvem classificar Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas, algo que qualquer morador de comunidade dominada por essas quadrilhas confirmaria sob juramento, e a cúpula do governo brasileiro, em vez de aplaudir, monta gabinete de crise para denunciar suposto pretexto de intervenção estrangeira. Repare na hierarquia dos pavores oficiais: o problema não é a facção que cobra pedágio em ônibus, decreta toque de recolher em bairro inteiro e fuzila vizinho por desobediência; o problema é o carimbo emitido em Washington. Quando o governo se assusta mais com a palavra que descreve o crime do que com o crime em si, vale perguntar a quem serve esse pudor seletivo.
Sigamos a trilha do dinheiro, que é onde a conversa fica interessante. PCC e CV não são confrarias de poetas marginalizados; são conglomerados bilionários que movimentam cocaína, armas, combustível adulterado, transporte clandestino, loterias paralelas e folhas de pagamento que fariam inveja a estatal de médio porte. Esse caixa não evapora. Ele circula, lava-se em comércio formal, financia campanhas em níveis que ninguém quer auditar, compra silêncio em delegacias, em fóruns, em câmaras municipais e, eventualmente, em corredores de Brasília. Classificação americana significa, na prática, congelamento de ativos no sistema financeiro global, sanção a quem transacionar com essas estruturas e lupa sobre os intermediários. Ou seja: alguém, em algum lugar, está com o rabo preso e suando frio. Resta saber quem.
O argumento da soberania, nesse contexto, é o último refúgio do constrangido. Soberania não é cláusula de imunidade para o crime que opera dentro das fronteiras; é o dever do Estado de manter o monopólio legítimo da força e proteger a vida e a propriedade do cidadão pacífico. Quando esse monopólio é dividido com facções que governam territórios inteiros, cobram tributos paralelos, executam dissidentes e ditam horários comerciais, a soberania já foi entregue, há muito tempo, no varejo. O que se invoca agora não é soberania nacional, é soberania da cumplicidade. É a defesa do arranjo, não da pátria. O rei está nu, e ainda exige reverência pela coroa que perdeu.
A construção lógica é simples e impiedosa. Se as facções praticam violência sistemática contra civis para impor controle territorial e político, então são organizações que se enquadram, sem ginástica semântica, em qualquer definição honesta de terrorismo. Se um governo estrangeiro reconhece esse fato e o governo nacional não reconhece, há duas hipóteses: ou o governo nacional é menos informado do que o estrangeiro sobre o próprio território, hipótese constrangedora, ou tem motivos que não cabem em entrevista coletiva. Não há terceira via decente. As coisas são o que são, independentemente da retórica que se construa para fantasiá-las de outra coisa.
Há ainda o detalhe risível das prioridades. O mesmo governo que decreta urgência climática, que pede empréstimo para tudo, que cria ministério para cada causa da moda, descobre súbita vocação para a contenção diplomática quando o assunto é facção criminosa. Para o produtor rural endividado, vem regulação. Para o pequeno empresário, fiscal. Para o contribuinte da classe média, alíquota nova travestida de justiça social. Mas para o cartel que matou mais brasileiros nas últimas décadas do que qualquer guerra externa, vem nota oficial preocupada com a reputação internacional do crime. A solenidade do poder, mais uma vez, escolhe seus inimigos pelo critério da conveniência, nunca pelo da gravidade.
No fim, a pergunta que organiza toda a confusão é a mesma de sempre, e ninguém em Brasília quer responder em voz alta. Quem paga essa indignação seletiva? O contribuinte, o comerciante extorquido, a viúva do policial, o jovem recrutado à força no beco. E quem recebe? Os operadores do esquema, os intermediários financeiros, os fiadores políticos, a turma que se beneficia de um Estado que combate o crime no discurso e o gerencia na prática. Quando um governo se mobiliza com mais energia para defender a honra dos bandidos do que a vida dos súditos, não está em jogo soberania, está em jogo sociedade.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.