Cinquenta e cinco por cento. Mais da metade dos brasileiros ouvidos pelo Datafolha olham para o Supremo Tribunal Federal e enxergam, por trás das togas, a sombra de um banco que cresceu depressa demais para quem supostamente não tinha padrinhos. O caso do Banco Master já era, por si só, um daqueles episódios que cheiram a engenharia financeira com respingo de poder público; agora, com a maioria do país convicta de que ministros da mais alta corte estão envolvidos, o que temos não é uma crise de imagem, é um diagnóstico popular sobre a natureza mesma do poder no Brasil. E o povo, quando fareja podridão, costuma errar menos que os analistas de gabinete.

Vamos ao esqueleto do caso, porque convém não se perder na neblina dos eufemismos. Um banco de médio porte, até ontem desconhecido do cidadão comum, aparece no noticiário cercado de suspeitas de operações heterodoxas, para usar o vocabulário gentil dos reguladores. Em seguida, surgem indícios de que integrantes do STF teriam algum tipo de ligação com o episódio. E o que faz o establishment? O de sempre: pede cautela, invoca o devido processo legal, lembra que são apenas "suspeitas". Tudo muito civilizado, tudo muito protocolar, tudo perfeitamente desenhado para que o tempo apague o escândalo antes que alguém precise dar explicações de verdade. Acontece que dessa vez o Datafolha fez a pergunta que as instituições preferiam engavetar, e a resposta veio como um soco no estômago da República togada.

O que significa, em termos práticos, que 55% da população acredita no envolvimento de ministros? Significa que a blindagem institucional do Supremo, aquela aura de inviolabilidade que durante décadas manteve a corte acima de qualquer escrutínio sério, colapsou. E colapsou não por causa de uma campanha de "desinformação", como certamente alegarão os porta-vozes de sempre, mas pelo acúmulo de evidências visíveis a olho nu. O brasileiro médio não lê pareceres jurídicos nem acompanha os meandros do sistema financeiro. Mas ele reconhece o padrão. Reconhece porque já viu antes, dezenas de vezes: o sujeito que julga é o mesmo que janta com quem é julgado, e quando o dinheiro aparece, as coincidências se multiplicam com uma regularidade que a teoria das probabilidades não consegue explicar. Na história das repúblicas, toda vez que o poder judiciário se confundiu com o poder econômico, o resultado foi o mesmo: a lei serviu ao cofre, não ao cidadão.

Repare no detalhe que o noticiário trata como nota de rodapé: apenas 4% dos que sabem do caso afirmam não ver participação de ministros. Quatro por cento. Isso não é divisão de opinião, isso é quase unanimidade popular contra a versão oficial. E aqui mora a pergunta que nenhum repórter de Brasília vai formular nos termos adequados: se o Banco Master operava de forma irregular, quem garantia que ele continuasse operando? Bancos não crescem no vácuo. Bancos crescem à sombra de regulação que pisca quando deveria vigiar e de decisões judiciais que, por puro acaso cronológico, favorecem quem precisava ser favorecido naquele exato momento. Siga o dinheiro, e a trilha sempre termina em algum gabinete com ar-condicionado e imunidade funcional.

O mais revelador, porém, não é o número em si, mas a reação previsível que virá. Apostem: nos próximos dias, algum ministro ou aliado de ministro vai sugerir que a pesquisa é "irresponsável", que "prejudica as instituições", que "alimenta o populismo". Traduzindo do juridiquês para o português: o problema não é o que fizemos, o problema é que vocês ficaram sabendo. Essa é a lógica invariável de todo poder encurralado, do absolutismo francês às oligarquias latino-americanas. O súdito não tem o direito de desconfiar do soberano, mesmo quando o soberano é flagrado com a mão na gaveta. Pois bem: 55% dos brasileiros já decidiram que têm esse direito. E a toga, por mais solene que seja, não é feita de teflon.

Resta saber se essa convicção popular terá alguma consequência concreta ou se, como tantas outras vezes, a indignação será lentamente dissolvida no ácido da normalização. O sistema tem uma capacidade impressionante de absorver escândalos, metabolizá-los e devolvê-los ao público como "fatos superados". Mas os números do Datafolha registram algo que talvez não se reverta tão facilmente: a morte da presunção de inocência institucional. Não a presunção jurídica, que é garantia individual e deve ser preservada, mas aquela outra, a presunção de que uma instituição é automaticamente honesta porque existe há muito tempo e seus membros vestem preto. Essa morreu. E quem a matou não foi nenhum agitador de redes sociais: foram os próprios ministros, com suas agendas opacas, suas decisões inexplicáveis e sua resistência furiosa a qualquer forma de transparência. Quando mais da metade de um país olha para seus juízes supremos e vê cumplicidade, a pergunta que resta não é se há envolvimento, mas quanto custou e quem assinou o cheque.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.