O Datafolha soltou o número e o Palácio do Planalto fingiu que era brisa de sábado. Trinta e nove por cento dos brasileiros classificam o governo como ruim ou péssimo, e o detalhe saboroso é que esse percentual vem subindo justamente no terceiro mandato do homem que se vendeu como mestre da popularidade. A pesquisa caiu numa manhã morna e os marqueteiros oficiais correram para a planilha de excuses prontas, sempre as mesmas, sempre culpando a chuva, o sol, o Congresso, o agro, a Faria Lima, o algoritmo do TikTok e, quando nada mais resta, a herança maldita de quatro anos atrás. Faltou só culparem o eclipse.

Acontece que o eleitor pode ser muita coisa, ingênuo inclusive, mas tem estômago. E o estômago não consulta marqueteiro. Quando o quilo do café triplica, quando a carne vira artigo de luxo, quando a conta de luz chega com aquele acréscimo discreto que ninguém explica direito, o cidadão faz a única pergunta que importa de verdade: para onde foi parar o meu dinheiro? A resposta, claro, está espalhada em ministérios criados para acomodar correligionários, em emendas pulverizadas para comprar votos no Congresso, em estatais reaparelhadas para distribuir cargos de R$ 30 mil, em ONGs amigas que recebem por relatório e em viagens internacionais cuja única entrega palpável é a foto do presidente sorrindo ao lado de algum ditador simpático.

Há uma lógica antiga e implacável funcionando aqui, e ela cabe num silogismo de feira. Governo que aumenta gasto sem aumentar produção produz inflação. Inflação corrói salário. Salário corroído empobrece eleitor. Logo, governo que aumenta gasto empobrece eleitor que o elegeu. Não é teoria conspiratória, é aritmética de padaria. E o eleitor médio, esse animal racional que os palacianos teimam em subestimar, está aprendendo a fazer essa conta no caixa do supermercado, que é a única universidade econômica que nunca fechou as portas no Brasil.

O mais cômico é o ritual de negação. Ministros sobem em palanque para anunciar que a popularidade voltará, que o povo vai entender, que falta comunicação. Sempre falta comunicação. Nunca falta gasto, nunca falta imposto, nunca falta apetite por dinheiro alheio, mas comunicação, ah, essa falta sempre. É como o marido infiel que jura à esposa que o problema do casamento é a falta de diálogo. O problema, senhora, não é o diálogo. É o batom na camisa. E o batom, neste caso, está estampado em cada centavo subtraído do bolso do contribuinte para financiar a corte de aduladores que cerca o trono.

Note quem ganha e quem perde nesse arranjo, porque toda política, no fundo, é uma operação de transferência. Ganham os burocratas com estabilidade vitalícia, os empreiteiros amigos com obras superfaturadas, os artistas subvencionados via lei de incentivo, os movimentos sociais profissionalizados, os sindicalistas que nunca pegaram em ferramenta, os intelectuais de gabinete que escrevem manifestos pagos pelo Tesouro. Perde o sujeito que acorda às cinco, pega dois ônibus, trabalha oito horas, paga imposto sobre o salário, imposto sobre o consumo, imposto sobre o combustível que usou para chegar ao trabalho, e ainda ouve no jornal das oito que precisa pagar mais para que a justiça social finalmente aconteça. A justiça social, descobre-se sempre tarde demais, é aquela que conserta o mundo com o dinheiro dos outros.

Trinta e nove por cento é só o começo. Quando a propaganda oficial se descola da realidade do bolso, a realidade vence por nocaute, sempre. O rei pode desfilar pelado pela avenida principal acompanhado de toda a corte aplaudindo o brocado imaginário, mas basta uma criança apontar o dedo para que a feitiçaria desmorone. A criança, neste país, atende pelo nome de inflação. E ela já apontou.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.