Existe no interior do Brasil, em noites de verão carregadas de umidade e capim-gordura, um espetáculo que nenhum decreto federal conseguiu regulamentar nem nenhuma agência estatal conseguiu tributar: o vaga-lume acende a própria luz. O inseto, por meio de uma reação química interna entre uma proteína chamada luciferina e uma enzima chamada luciferase, converte energia química em luz visível com uma eficiência que envergonharia qualquer engenheiro do setor público. Quase cem por cento da energia empregada vira luz. Zero desperdício. Zero burocracia. Zero verba carimbada com o CNPJ de uma empresa de fachada em endereço no Paraguai.
A pergunta que ninguém faz, porque a resposta é incômoda, é esta: por que o vaga-lume precisa brilhar no escuro? A resposta biológica é simples, cada espécie tem seu padrão de piscadas, sua frequência, sua assinatura luminosa, e é por meio desse código que o macho localiza a fêmea, que o predador é avisado, que a vida continua. O brilho tem função. O brilho serve a algo concreto e verificável. Compare isso com os holofotes que iluminam palanques eleitorais, transmissões em rede nacional e inaugurações de obras inacabadas: aquela luz não revela nada, ela encobre. Não comunica, ela dissimula. O custo energético é altíssimo, pago pelo contribuinte, e a eficiência é negativa, porque quanto mais brilha, menos se enxerga.
Há uma lição de honestidade radical no metabolismo desse inseto que os organismos humanos de poder jamais aprenderão, simplesmente porque não têm nenhum interesse em aprender. O vaga-lume não extrai a luz de outro vaga-lume. Não há um imposto sobre o brilho alheio para financiar o próprio lampejo. Não existe um Ministério da Luminescência redistribuindo fótons dos mais brilhantes para os menos produtivos, em nome da justiça lumínica e da coesão social do pântano. Cada inseto carrega dentro de si a capacidade de iluminar, e a usa no momento certo, para a finalidade certa, sem pedir autorização, sem apresentar nota fiscal, sem aguardar a janela de empenho abrir no Siafi.
O escuro, aqui, merece reabilitação. A escuridão não é o problema, ela é o contexto que torna o brilho honesto visível. Numa noite sem vaga-lumes, o escuro é apenas escuro. Mas numa noite com vaga-lumes, o escuro é o fundo sobre o qual a autenticidade se revela. É o que permite distinguir o que produz luz do que apenas reflete a luz dos outros, ou pior, do que consome a luz alheia para parecer que brilha. Intelectuais de corte, jornalistas de assessoria, acadêmicos de cátedra subsidiada: todos eles são a lua nessa metáfora, astros sem luz própria que dependem de um sol, geralmente o sol do orçamento público, para existir no firmamento cultural.
A evolução levou milhões de anos para aperfeiçoar o mecanismo do vaga-lume. A eficiência quase perfeita da bioluminescência não foi planejada por nenhum comitê, não passou por nenhuma consulta pública, não teve sua viabilidade estudada por nenhuma consultoria contratada por dispensa de licitação. Ela emergiu da pressão implacável da realidade: ou o inseto aprendia a produzir luz com o mínimo de desperdício, ou morria sem se reproduzir. O mercado da sobrevivência é brutalmente honesto. Já o mercado político, como qualquer pessoa com dois neurônios funcionando percebe, recompensa exatamente o oposto: quanto mais se desperdiça, mais se justifica o próximo orçamento; quanto menos se produz, mais se argumenta pela necessidade do programa. O vaga-lume que desperdiçasse energia morreria. O gestor público que desperdiçasse verba pede suplementação e ganha promoção.
Então, da próxima vez que um ponto de luz verde-amarelado cruzar o jardim numa noite quente, observe com o respeito que o fenômeno merece. Aquilo é autossuficiência em ação. É propriedade privada dos próprios recursos metabólicos. É produção sem redistribuição compulsória. É comunicação sem censura, sem algoritmo, sem conselho de ética da mídia avaliando se o piscar está de acordo com as diretrizes do ecossistema inclusivo e diverso. O vaga-lume não pede licença para brilhar. Essa é, precisamente, a razão pela qual ainda existe.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.