Reúna numa mesma mesa uma autodeclarada bruxa e uma cristã, ligue o microfone, acenda as câmeras e prometa ao público que vai pegar fogo. Pegou. Houve ofensa, houve comentário de cunho sexual, houve a promessa ritualística de medidas judiciais. O espanto fingido dos produtores é a parte mais cômica da farsa, porque o produto vendido era exatamente esse, o atrito convertido em clipe viral, o insulto transformado em métrica de engajamento, a humilhação alheia empacotada como conteúdo premium. Ninguém contrata um gladiador e depois processa o leão.
O arranjo é simples e antigo, tão velho quanto o Coliseu, só que com patrocínio de casa de apostas e corte vertical para o TikTok. A plataforma ganha audiência, o apresentador ganha relevância, as convidadas ganham seguidores, o advogado ganha cliente e o espectador ganha a ilusão de estar testemunhando um debate civilizatório quando, na verdade, está assistindo a um pay-per-view de baixo orçamento. Cada parte sabe o seu papel, cada parte recebe o seu quinhão, e a indignação posterior é apenas o segundo ato do mesmo espetáculo, aquele em que se monetiza a vítima depois de já ter monetizado a agressora.
O silogismo aqui é constrangedor de tão limpo. Quem aceita participar de programa anunciado como confronto entre cosmovisões antagônicas, aceita o confronto. Quem aceita o confronto, aceita os riscos do confronto. Logo, quem se diz surpreendida pelo confronto está mentindo, ou para o público, ou para si mesma, ou para o juiz que terá a infelicidade de receber a petição. As coisas são o que são, não o que o departamento de marketing diz que elas são, e um podcast de polêmica não vira simpósio de filosofia da religião porque alguém, no meio do tiroteio, lembrou que tinha pele fina.
Há um detalhe ainda mais sintomático nessa pantomima, que é o uso do aparato estatal como árbitro de gosto e moderador de costumes. O mesmo Estado que não consegue entregar segurança na esquina, nem alfabetizar a criança na escola, nem operar o pronto-socorro sem fila de doze horas, é agora convocado para mediar bate-boca entre celebridade alternativa e celebridade evangélica. Cada ação dessas custa dinheiro público, ocupa servidor público, atrasa pauta de quem foi roubado, esfaqueado, despejado, e o cidadão pagador de impostos financia involuntariamente o desfecho judicial de uma briga que ele nem assistiu, porque tinha mais o que fazer.
A confusão entre liberdade de expressão e direito a aplauso é o vírus da época. Falar o que se quer implica ouvir o que não se quer, e quem entra em ringue precisa saber apanhar, ou ficar em casa cuidando da horta. A judicialização permanente do desconforto transforma cada conversa pública num campo minado, encarece o debate, premia o ofendido profissional e desestimula qualquer um que ainda tenha algo honesto para dizer. No fim, sobra o cínico, que sabe jogar dos dois lados, e o medroso, que não diz mais nada. Os dois extremos servem perfeitamente a quem quer uma esfera pública domesticada.
Então volta a pergunta inicial, sempre a mesma, a única que importa. Quem paga essa conta e quem recebe o cheque? Paga o espectador que entrega atenção, paga o anunciante que entrega verba, paga o contribuinte que entrega o salário do magistrado convocado para apartar a briga. Recebe o produtor do programa, recebe a plataforma que hospeda o vídeo, recebe a banca de advocacia que descobriu na ofensa um novo nicho de mercado, recebe a própria suposta vítima, que sai do episódio mais conhecida do que entrou. Como sempre, o circo se sustenta porque há quem pague o ingresso fingindo que está indo à missa.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.