O delegado da Polícia Federal Rodrigo Morais Fernandes, aquele mesmo que chefiou os inquéritos do atentado à faca de 2018, resolveu que o problema do país não era o esfaqueamento de um candidato à Presidência da República em plena campanha eleitoral, mas sim a cobertura jornalística que questionou a sua condução do caso. Acionou a Jovem Pan, mirou no jornalista, sonhou com indenização e censura travestida de reparação moral. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais, num lampejo daqueles que infelizmente são raros, lembrou ao servidor que reclamação de jornalista não se resolve com martelinho de juiz, e mandou a ação para o ralo. Eis aí um espetáculo raro: o aparelho estatal apanhando do próprio aparelho estatal.
A coisa precisa ser dita com todas as letras, sem o verniz de neutralidade que envenena a imprensa domesticada. Quando um delegado federal, pago com o imposto do leiteiro de Pirapora e do mecânico de Brusque, vai ao Judiciário processar veículo de imprensa por discordar das suas conclusões, ele não está defendendo a honra ferida do cidadão Rodrigo. Está usando o cargo, o prestígio e os bolsos dos contribuintes como ariete contra a única coisa que ainda atrapalha um pouco o conforto da burocracia, que é o jornalismo que não pede licença. O cidadão comum não tem nem advogado para divórcio; o delegado tem batalhão de juristas para silenciar palpiteiro.
Reparem na lógica do arranjo, porque ela é simples e tem séculos. Quem ocupa cargo público responde, por definição, ao público. Quem responde ao público é submetido ao escrutínio público. Quem é submetido ao escrutínio público escuta coisa que não gosta. Logo, quem não suporta escutar coisa que não gosta deveria, por elementar honestidade, voltar para a iniciativa privada e tentar a vida de microempreendedor, onde o cliente reclama no Google e ninguém aciona o tribunal por ofensa moral. Não foi essa a rota escolhida. A rota escolhida foi a clássica: usar o monopólio togado da força para domar a língua alheia. Não funcionou desta vez, e o registro precisa ficar gravado a ferro quente.
O detalhe que ninguém quer comentar, porque dá trabalho, é o seguinte. A facada de 2018 nunca foi devidamente esclarecida, e os inquéritos que insistiram na tese do lobo solitário desafiam não apenas a desconfiança popular legítima, mas a própria gramática mínima da investigação criminal. Em vez de receber a crítica como adubo, o responsável pelo arquivamento das hipóteses incômodas decidiu transformar a crítica em crime. É a velha mecânica de quem confunde a função pública com latifúndio pessoal: o gabinete é meu, o crachá é meu, e portanto a narrativa também há de ser minha. O leitor, que paga o salário, fica com o resto, isto é, com nada.
Há um ponto cômico, daqueles que só a história entrega. Toda autoridade que tenta calar a imprensa termina amplificando exatamente aquilo que queria abafar. O imperador que mandava cortar línguas só conseguia transformar fofoca de taverna em manifesto político. O delegado que processa emissora hoje obtém, de graça e em tribunal, o que jamais conseguiria pagando assessoria: a reabertura do debate sobre o que foi e o que não foi apurado em 2018. Cada petição mal calibrada é um outdoor pago com dinheiro do autor da petição, anunciando que existe sim algo a explicar. Bobagem é gratuita, mas custa caro a quem pratica.
A decisão mineira, modesta no tamanho mas cirúrgica no recado, serve de termômetro. Enquanto houver tribunal que diga não ao apetite censório do servidor irritado, ainda existe república. No dia em que essas ações começarem a prosperar, e prosperam em muitos rincões deste Brasil, o jornalismo livre vira hobby de aposentado e a fiscalização do poder, peça de museu. Por isso o caso interessa mesmo a quem nunca ouviu falar do delegado, do jornalista ou da emissora. Não é briga deles. É briga sua, pagador de imposto, leitor desavisado, contribuinte vitalício de um aparelho que vez ou outra se esquece de quem é o patrão.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.