O homem que financiou a maior compra de parlamentares já documentada na história recente da República publica uma nota lastimando que o Senado tenha rejeitado o indicado do presidente para a cadeira mais alta da magistratura nacional. E, para que ninguém esfrie quanto à origem do incômodo, anexa à manifestação uma fotografia sorridente ao lado do casal que ocupa o Planalto. A cena tem o requinte involuntário das melhores comédias romanas: o tesoureiro do escândalo posando como conselheiro de Estado, a primeira-dama enquadrada como cortesã medieval, o presidente reencenando o gesto paternal de quem distribui prebendas a quem nunca devolveu a confiança. Só falta o pintor de corte para imortalizar o quadro a óleo.

O argumento da nota é que a derrota do indicado teria caráter eleitoreiro, como se a indicação em si fosse fruto de algum exame técnico extraído de um concurso público transparente. A peça é digna de exame em laboratório de retórica. Quando o governo nomeia, é mérito; quando o Senado rejeita, é eleitoreirismo. A premissa maior não se sustenta, a menor é falsa, e a conclusão sai pela culatra do próprio enunciado. O cargo de ministro do Supremo, criado para conter o poder, tornou-se prêmio distribuído entre afilhados, advogados pessoais e operadores políticos. A indignação seletiva diante da rejeição apenas confirma que o pleito era, sim, de natureza distributiva, e não jurisdicional.

Vale lembrar quem pagou o ingresso desse reencontro fotográfico. O personagem da nota foi condenado pelo Supremo, exatamente o tribunal cuja composição agora ele se sente autorizado a debater publicamente, por ter operado o esquema que mensalmente irrigava deputados com dinheiro desviado de estatais e bancos oficiais. O contribuinte, aquele sujeito anônimo que nunca tem assento na foto, financiou primeiro o esquema, depois a investigação, depois o processo, depois a defesa via prerrogativas e, finalmente, a anistia política travestida de reabilitação. É o ciclo perfeito do confisco com retorno garantido para o operador, e prejuízo permanente para quem produz.

A foto não é casual, é programa. Trata-se de comunicar à militância que o anel não se perdeu, apenas mudou de dedo, e que o trono continua aberto aos antigos cortesãos. O símbolo aqui pesa mais que qualquer indicação ao Supremo: o regime sinaliza que reconhece os seus, que paga as dívidas pretéritas, que reabilita publicamente quem pagou o pato em nome do projeto. Numa república saudável, alguém condenado por corrupção ativa em massa não posaria com o chefe do Executivo nem aconselharia a Casa que julga vetos a indicações vitalícias. Aqui, posa, opina e ainda emite nota oficial. O que era para ser estigma virou credencial.

O Senado, por uma vez, fez aquilo que a Constituição lhe atribui e que costuma esquecer com diligência exemplar: disse não. Pode ter feito por cálculo eleitoral, pode ter feito por vingança, pode ter feito por aversão pessoal ao indicado, e nada disso importa para o resultado institucional. O freio funcionou justamente porque os incentivos se desalinharam, o que é precisamente a virtude do desenho original quando ainda funciona. A queixa de que faltou cordialidade republicana vinda de quem comprava votos no atacado é o tipo de paradoxo que devolve ao leitor a fé na ironia como ferramenta cognitiva. Quem viveu de comprar maioria não tem moral para reclamar quando a maioria, por uma vez, não está à venda no balcão.

No fim, sobra a pergunta de sempre, aquela que o noticiário oficial sempre desvia com adjetivos. Quem ganha com a foto, quem ganha com a nota, quem ganharia com a confirmação do indicado, e quem paga por tudo isso? Ganha o partido que reorganiza sua narrativa de perseguição. Ganha o operador que se reinsere na cena como interlocutor legítimo. Ganharia o presidente, que ampliaria o controle sobre o tribunal que julga os seus. Perde, como sempre, o sujeito que acordou cedo, pegou o ônibus, pagou imposto sobre o salário, imposto sobre o aluguel, imposto sobre a comida e imposto sobre o imposto, e que nunca, jamais, em nenhum álbum, aparecerá ao lado do casal sorridente.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.