Ed Markey, senador democrata por Massachusetts, olhou para uma tecnologia que ainda está aprendendo a andar e concluiu que a resposta civilizada é mais legislação, mais fiscalização, mais gente de terno decidindo o que o americano pode fazer atrás de um volante que ele mesmo comprou. A justificativa é comovente, existem motoristas dormindo enquanto o Autopilot conduz. A conclusão, previsível, é que o Congresso precisa agir. Traduzindo, o cidadão comprou um carro de sessenta mil dólares, escolheu confiar no software, e agora precisa de um burocrata em Washington para lembrá-lo de manter os olhos abertos. O paternalismo terapêutico avança fantasiado de segurança pública, e ninguém pergunta se o cochilo do motorista é assunto do Estado ou do próprio pescoço dele.

A cena tem uma comicidade macabra. O mesmo aparato regulatório que fingiu não ver por décadas os acidentes causados por álcool, sono, celular e simples estupidez humana agora se descobre urgentemente preocupado com o motorista de Tesla. Por que a Tesla? Ora, porque a Tesla é visível, é rica, é odiada pelas pessoas certas, e sobretudo porque cada nova regra federal cria automaticamente um novo escritório, um novo orçamento, um novo lobby, uma nova geração de consultores que vive de traduzir a regra para os regulados. É o ciclo eterno, o problema justifica a intervenção, a intervenção cria distorção, a distorção justifica a próxima intervenção. Ninguém nunca sai do labirinto porque quem projetou o labirinto vive dentro dele.

Vale seguir o dinheiro, que é sempre o melhor mapa. Uma legislação federal contra motoristas de veículos autônomos não é gratuita. Alguém escreve o texto, alguém audita a conformidade, alguém certifica os sensores, alguém treina a polícia rodoviária, alguém advoga pelas montadoras tradicionais que já têm departamento jurídico calibrado para novas exigências e que veem com bons olhos qualquer regra que atrapalhe o novato do vale do silício. A concorrência regulatória é a arma predileta do incumbente. Os fabricantes que não conseguem competir em preço, autonomia ou software adoram descobrir de repente uma vocação para a segurança do próximo. E o senador que patrocina a lei ganha manchete, campanha, doador agradecido e a sensação, sempre lucrativa, de ter salvado a pátria de um mal inventado por ele mesmo.

O detalhe que ninguém quer enxergar é o que não se vê. Cada regra federal que encarece o carro autônomo mata, em silêncio estatístico, os acidentes que essa tecnologia teria evitado no ano seguinte. Sistemas de assistência à direção, mesmo imperfeitos, já reduzem colisões traseiras, saídas de pista e atropelamentos. Retardar a adoção em nome de proteger o motorista distraído significa, na prática, condenar pedestres, ciclistas e passageiros a mais alguns anos de motoristas cansados, embriagados e desatentos guiando duas toneladas de aço sem nenhuma correção automática. Os mortos dessa demora não aparecem em coletiva de imprensa. Os salvos pela regra sim, sempre com foto e legenda.

Há ainda a questão moral, que o discurso regulatório finge não enxergar. Se o adulto que comprou o carro decide confiar demais no software e cochilar, o problema é dele e do contrato que assinou com a montadora. Existem tribunais para resolver isso, existem seguradoras para precificar o risco, existe responsabilidade civil para apurar culpa. Nada disso exige um senador. O que o projeto propõe é substituir a responsabilidade individual, custosa e educativa, pela tutela federal, cômoda e infantilizante. O cidadão deixa de ser agente da própria vida e vira criança grande que precisa de babá com distintivo. Cada regra dessas rouba um pedaço da capacidade de o adulto se governar, e o adulto, treinado a obedecer, agradece.

No fim, a notícia não é sobre Tesla, não é sobre sono ao volante, não é sobre inteligência artificial. É sobre um modelo de sociedade em que qualquer novidade tecnológica é recebida pelo Estado com a pergunta errada. Não se pergunta como preservar a liberdade de experimentar, como responsabilizar quem causa dano real, como deixar o mercado punir o produto ruim com a falência que ele merece. Pergunta-se apenas quem legisla, quem fiscaliza, quem multa e quem cobra. E enquanto o senador dorme tranquilo em Washington, achando que salvou vidas, o motorista americano descobre que a sua Tesla continua dirigindo sozinha, só que agora com um passageiro invisível no banco de trás, de terno e gravata, cobrando pedágio a cada quilômetro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.