A Polícia Civil de São Paulo afirma que Deolane Bezerra, presa na quinta-feira 21, teria transformado a própria imagem em máquina de lavar. Carros de luxo desfilados no Instagram, viagens internacionais com legendas inspiracionais, movimentações milionárias travestidas de cachê, jogo online, mentoria e palestra motivacional. Tudo, segundo a investigação, para dar aparência de licitude a recursos do Primeiro Comando da Capital. A defesa nega. O enredo, contudo, é antigo demais para surpreender qualquer um que ainda saiba ler.

Quem paga e quem recebe? Eis a única pergunta que importa, e ela explica o arranjo inteiro. O dinheiro do tráfico precisa de poros para evaporar e voltar como renda confessável. O influenciador precisa de capital para sustentar a coreografia do êxito, porque a internet engole personagem médio em três dias. Quando o esgoto encontra a vitrine, nasce a simbiose perfeita: o crime financia a fantasia, e a fantasia esteriliza o crime. Não é coincidência, é divisão do trabalho. Cada um cumpre seu papel no teatro, e o público aplaude achando que assiste a um conto de fadas meritocrático.

Há algo de comicamente repetitivo nisso. Capone também adorava ser fotografado de terno claro em camarote de boxe, distribuindo sopa para pobre na Depressão enquanto o cofre transbordava de etanol clandestino. Os Médici de Florença lavaram séculos de usura financiando catedrais e mecenato artístico, e hoje passam por patronos da civilização. A técnica não mudou: você pega aquilo que a moral comum condena e embrulha em algo que a moral comum aplaude. Antes era afresco encomendado a Botticelli, agora é story patrocinado com bolsa de grife. Mesma alquimia, contratante diferente. O verniz é cosmético, o esgoto continua correndo por baixo.

O detalhe que ninguém quer enxergar é estrutural. A facção brasileira mais poderosa não financia ostentação alheia por estética. Ela compra acesso, simpatia, capilaridade cultural, advogados influentes, plateia cativa de milhões de jovens. Cada like na piscina de borda infinita era, na hipótese policial, um voto silencioso de legitimidade para o esquema. O monopólio estatal da violência terceiriza territórios há décadas, finge combater enquanto cobra pedágio em forma de imposto sobre o consumo legal que sustenta a economia paralela, e depois encena prisão midiática para o cidadão sentir que algo funciona. Funciona, sim. Funciona para todo mundo, menos para quem paga a conta.

E quem paga a conta, no fim, é sempre o mesmo otário: o sujeito que acordou cedo, recolheu carnê de imposto, viu o poder de compra do salário derreter, e ainda assistiu na televisão a moça do jatinho explicando que o segredo do sucesso é mentalidade. Mentalidade, claro. A mentalidade de ter um sócio oculto com CNPJ no inferno. O empreendedor honesto, esse coitado, perde mercado para a concorrente subsidiada pelo tráfico, fecha as portas, e ainda ouve do economista de plantão que o problema é falta de inovação. Não é. O problema é que o jogo está marcado, e a banca tem armas.

Se a acusação proceder, a moral da história é cristalina e desconfortável: nenhuma fortuna que se exibe gritando é o que parece, e o consenso unânime em torno de qualquer ídolo instantâneo merece, por princípio, a desconfiança mais radical. Quando todo mundo concorda que fulano venceu na vida sem que ninguém saiba exatamente como, é porque alguém, em algum lugar, está pagando o silêncio coletivo. O rei está nu, gente. Sempre esteve. A única novidade é que dessa vez vieram com mandado.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.