O Departamento de Justiça dos Estados Unidos abriu investigação antitruste sobre um acordo comercial entre a Nvidia e a Groq, startup de chips de inferência para inteligência artificial, sob suspeita de que a gigante dos semicondutores estaria usando seu poder de mercado para condicionar acesso, preços ou preferências no ecossistema de IA. A narrativa oficial é a de sempre, o Estado benevolente protegendo o consumidor do capitalista voraz. A realidade é um pouco mais desconfortável, e ela começa perguntando quem criou o monopólio que agora finge combater.
A Nvidia não virou dona de oitenta por cento do mercado de chips para IA por bruxaria. Ela virou porque investiu duas décadas em uma arquitetura de software, o CUDA, enquanto os concorrentes dormiam. Isso é mérito, não crime. O que é crime, no sentido moral e não jurídico do termo, é o que Washington fez em paralelo, despejou dezenas de bilhões via CHIPS Act para escolher vencedores, decretou controles de exportação que reorganizaram o mapa da indústria global, e transformou cada decisão comercial da empresa em item de política externa. Você não pode subsidiar, dirigir, restringir e proteger um setor durante anos e depois se indignar quando o setor concentra. A concentração é filha legítima da intervenção, não bastarda do mercado.
Siga o dinheiro e o roteiro fica mais claro. A Groq tem entre seus investidores e clientes exatamente o tipo de fundo que ganha muito se a Nvidia perder um pedaço da fatia; a investigação, independentemente do mérito técnico, é ativo financeiro. E o processo antitruste americano nas últimas duas décadas raramente terminou beneficiando o consumidor final, terminou redistribuindo renda entre departamentos jurídicos, ativistas regulatórios, ex-procuradores que viraram lobistas e concorrentes menores que descobriram ser mais barato litigar do que inovar. O consumidor, esse coitado, paga a conta em preços mais altos, produtos atrasados e uma indústria com medo de crescer demais.
Há um detalhe que quase ninguém comenta e que devia estar na primeira linha de qualquer análise honesta. O que se vê é a manchete sobre a Nvidia poderosa demais. O que não se vê é o custo de intimidar a única empresa americana que hoje segura, sozinha, a liderança tecnológica ocidental contra a China no único setor que importará nos próximos vinte anos. Quebrar a Nvidia em nome de uma teoria abstrata de concorrência, no momento exato em que Pequim despeja recursos infinitos na sua própria indústria, é o tipo de suicídio estratégico que só uma burocracia bem alimentada consegue chamar de política pública. E é exatamente o que está sendo preparado.
Há ainda a hipocrisia estrutural. A mesma máquina regulatória que investiga um acordo privado entre duas empresas de chips não investiga o próprio Federal Reserve, que imprimiu trilhões e inflou artificialmente cada avaliação de startup de IA da última rodada; não investiga o próprio Tesouro, que decide por decreto quais chips podem cruzar quais fronteiras; não investiga o próprio Congresso, que distribuiu subsídios como bispo distribuindo hóstia. O monopólio de verdade, aquele que ninguém pode competir, tem sede em Washington, imprime a moeda e escreve as regras. Contra esse, nenhum promotor abre inquérito.
A lição para quem observa daqui do sul do continente é útil e barata. Toda vez que um governo se apresenta como guardião da concorrência, procure primeiro as digitais dele nos alicerces do problema que ele finge resolver. Quase sempre estão lá, frescas, e o inquérito que ele abre serve menos para punir o culpado do que para desviar o olhar do verdadeiro incendiário, que continua no comando da mangueira.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.