O espetáculo é digno de ópera bufa. Um deputado federal, eleito com voto brasileiro, remunerado com imposto brasileiro, embarca rumo a Washington não para defender interesse nacional algum, mas para pedir, de joelhos e em inglês macarrônico, que autoridades estrangeiras investiguem um adversário político doméstico. Chama o sujeito de vagabundo em entrevista, posa para foto diante do Capitólio e volta achando que fez patriotismo. Fez, sim, mas o de outro país. O nosso, que pagou a passagem, continua sendo a vaca leiteira do circo.
Convém olhar para a fatura antes de aplaudir a indignação. Quem custeia a peregrinação? O sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar ônibus lotado, o comerciante que fecha o mês no vermelho, a doméstica que vê o salário evaporar no supermercado. Esses financiam, via diária parlamentar, passagem executiva, hotel e ajuda de custo, o passeio do legislador que foi, em tese, contratado para fiscalizar o Executivo, não para terceirizar a perseguição política ao FBI. A premissa é simples: representante eleito existe para servir ao eleitor. O eleitor brasileiro pediu cooperação com investigação americana contra cidadão brasileiro? Não pediu. Logo, o que se viu não foi mandato, foi excursão.
O detalhe saboroso, aquele que a imprensa oficial finge não ver, é a inversão completa do discurso. Durante anos esses mesmos parlamentares esbravejaram contra ingerência estrangeira, contra colonialismo americano, contra soberania ameaçada. Quando convém, porém, vão bater na porta do xerife do norte com dossiê embaixo do braço e sorriso no rosto. A soberania, pelo visto, é como guarda chuva: abre e fecha conforme o tempo político. Ontem o império era inimigo, hoje é tribunal de recurso. Coerência, nessa turma, é luxo que ninguém pode bancar, mas hipocrisia, ah, essa vem com isenção fiscal.
Há ainda a questão do tarifaço, que serve de pretexto para a delação aérea. Atribuir tarifa imposta por governo estrangeiro à ação de um único pré-candidato é confessar, sem querer, a própria impotência diplomática. Se um cidadão privado, sem cargo, sem caneta, sem orçamento, consegue dobrar a política comercial da maior economia do planeta, então quem está no Itamaraty está recebendo salário indevido. Ou o argumento é mentiroso, ou a chancelaria é inútil. Não há terceira opção. E o silogismo, frio como deve ser, sentencia: se o problema é a tarifa, o caminho é negociar com quem a decretou, não denunciar compatriota a quem a decretou. O resto é teatro.
Note como tudo converge para o mesmo ponto: ampliar o poder de punir, terceirizar a perseguição, criminalizar a oposição com selo internacional para dar ares de legitimidade ao que, no varejo, seria reconhecido como vingança rasteira. É a velha técnica do regime que não consegue derrotar o adversário nas urnas nem no debate, então tenta enquadrá lo no código penal de qualquer jurisdição disponível. Se não der no Supremo, tenta no Departamento de Justiça americano. Se não der lá, talvez na Interpol, na ONU, em algum tribunal da Papua Nova Guiné. O importante é manter o inimigo ocupado com advogado enquanto o cofre público segue aberto para os amigos do rei.
No fim, a pergunta que ninguém quer responder permanece intacta. Quem paga essa viagem? O contribuinte. Quem recebe? O parlamentar em diária, o adversário em dor de cabeça, o governo em manchete favorável e o establishment em mais uma dose de combustível para a fogueira. O cidadão que financiou tudo isso ganha o quê? Inflação, gasolina cara, conta de luz salgada e o privilégio de assistir ao próprio dinheiro sendo usado para abastecer a guerra particular de quem ele, ingenuamente, achou que tinha eleito para resolver os problemas do país. Rei algum jamais usou a coroa com tanto descaramento, e o pior é que esse aqui nem coroa tem, só tem mandato.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.