Caiu mais um. Quatro andares no bairro Luiz Anselmo, em Salvador, vieram abaixo na tarde de sábado como castelo de areia em maré alta, levando duas vidas para o necrotério, deixando uma terceira soterrada em paradeiro ignorado e três sobreviventes que vão passar o resto da vida tentando entender por que o teto da própria casa decidiu cumprimentar o chão. A cena é tristemente familiar, repetida em ladeiras de Salvador, em encostas do Rio, em palafitas do Recife, com a regularidade de quem assiste o mesmo filme dublado por elencos diferentes. Muda o CEP, muda o nome da vítima, permanece o roteiro.
E o roteiro é sempre o mesmo. Uma cidade que cobra IPTU como se fosse país escandinavo, que tributa cada tijolo assentado, cada alvará renovado, cada metro quadrado averbado, e que entrega em troca um serviço de fiscalização cuja eficácia se mede pela quantidade de coroas de flores depositadas nos escombros. Salvador arrecada bilhões. Salvador tem secretarias, subsecretarias, coordenadorias, departamentos, gerências, defesa civil, vigilância sanitária, controle urbanístico e um cipoal de siglas que ocupa página inteira no diário oficial. Tudo isso supostamente para impedir que prédios de quatro andares virem cascalho. Pois bem: viraram. Conclusão silogística que qualquer pedreiro entende sem precisar de doutorado.
Pergunta inevitável, daquelas que o jornalismo bem comportado evita porque dá trabalho: quem assinou o último laudo daquele imóvel? Quem recebeu para olhar e fingir que olhou? Quem deveria ter interditado e preferiu o envelope, o cafezinho, a vista grossa, o sumiço estratégico do processo na gaveta? Porque o desabamento não é fenômeno meteorológico, não cai do céu por desígnio divino. Desabamento é desfecho de uma cadeia de omissões, cada elo com nome, CPF e holerite pago com dinheiro de contribuinte. O concreto não mente, e quando cede está apenas confessando o que os papéis carimbados esconderam.
A vítima, claro, é sempre o pobre. Não desaba edifício de luxo na orla, não vem abaixo cobertura em bairro nobre, não some sob entulho o morador de condomínio fechado. Cai o sobrado adaptado, o puxadinho verticalizado, a construção do trabalhador que economizou a vida inteira para erguer um teto e que pagou tudo o que o leão exigiu, e mais um pouco para os despachantes, e mais um pouco para o engenheiro que assina laudo por quilo. O Estado que se diz protetor dos humildes é exatamente o mesmo que os esmaga, primeiro pelo bolso, depois pela laje. E ainda terá a desfaçatez de mandar um secretário de terno engomado lamentar profundamente o ocorrido diante das câmeras, prometendo apuração rigorosa que jamais virá.
Apuração rigorosa, aliás, é o santo padroeiro das tragédias brasileiras. Toda vez que algo desmorona, explode, queima ou afunda, lá vem a expressão mágica, repetida com a solenidade de quem reza o terço. Apura, apura, apura, e ao final da apuração se descobre que ninguém foi culpado, que faltou pessoal, que o sistema falhou, que era um caso isolado, que se tratava de força maior. A culpa, eterna órfã, vagueia pelos corredores do poder sem encontrar pai que a reconheça. Enquanto isso, as famílias enterram seus mortos com o mesmo dinheiro que já haviam entregue ao Estado para que mortes assim não acontecessem. Pagam duas vezes, e ainda pagam o IPTU do terreno onde o prédio caiu.
O cínico dirá que prédio velho cai mesmo, que é da natureza das coisas, que não dá para fiscalizar tudo. Mentira deslavada. Dá sim, porque há orçamento para isso, porque há cargo criado para isso, porque há concurso público realizado para isso, porque há salário pago para isso. Se não fiscaliza, é porque escolheu não fiscalizar, e essa escolha tem beneficiário. Sempre tem. Basta perguntar quem ganha com a omissão, quem economiza no laudo, quem prospera no improviso, quem fatura no afrouxamento da regra. A resposta não está nos escombros, está nos contracheques. E enquanto ninguém tiver coragem de seguir essa trilha até o fim, o próximo prédio já está escolhido. Só falta a data.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.