Faz dois meses que Vitória Figueiredo Barreto, vinte e tantos anos, formada em psicologia, brasileira de carteirinha, foi engolida pela neblina inglesa nas cercanias de uma marina chamada Brightlingsea. As câmeras a flagraram pela última vez na madrugada de 4 de março, e desde então o caso entrou naquele limbo burocrático em que polícia estrangeira fala pouco, consulado fala menos, e a família, do outro lado do Atlântico, vai aprendendo na marra que cidadania brasileira no exterior pesa o equivalente a uma nota promissória vencida.
Há um detalhe que a imprensa solene costuma passar batido, mas que merece a lupa: o Estado brasileiro arrecada do contribuinte, ano após ano, montanhas de dinheiro sob a justificativa de manter uma rede consular global, embaixadas suntuosas, adidos, attachés, recepções regadas a vinho do Porto em Londres. E quando uma cidadã, jovem, em situação dramática, desaparece a duas horas de carro de Westminster, a máquina patina como Fusca em ladeira molhada. O Itamaraty, esse colosso de prédios em mármore, descobre a tragédia pelo Instagram da família. Pagamos pelo aparato e recebemos o silêncio. Eis a equação predileta do poder público: cobra como Rolls-Royce, entrega como carroça.
O argumento padrão é que o caso está nas mãos da polícia britânica, soberania alheia, jurisdição complicada, etc. Falácia. Diplomacia consular existe justamente para furar esse muro, pressionar cronograma, exigir relatório, aparecer no jornal local cobrando providências. Quando se trata de comitiva oficial em viagem de turismo travestida de missão técnica, o avião decola em horas. Quando se trata de uma psicóloga cearense desaparecida, o expediente vira cinco da tarde, sextou, segunda a gente vê. As coisas são o que são pelo que entregam, não pelo que escrevem em folder institucional.
Há ainda o subtexto que ninguém quer encarar de frente. A Inglaterra de hoje não é a Inglaterra do imaginário coletivo brasileiro, aquela terra de bobby simpático e Sherlock Holmes resolvendo mistério em duas cachimbadas. É um país com polícia desfinanciada, taxa de elucidação de crimes em queda livre, periferias entregues à própria sorte e uma classe política mais preocupada em legislar pronome do que em achar gente desaparecida. Mas a narrativa oficial do brasileiro de classe média continua vendendo Europa como santuário civilizatório, como se o passaporte do primeiro mundo fosse colete à prova de balas. Não é. Nunca foi. E quem alimenta a ilusão tem responsabilidade no preço final.
Quem ganha com a opacidade do caso? Ganha a polícia local, que evita escrutínio sobre sua incompetência. Ganha o consulado, que não precisa abrir relatório sobre o que andou fazendo em sessenta dias. Ganha o governo brasileiro, que prefere não admitir publicamente que sua estrutura de proteção ao nacional no exterior é um castelo de cartas. Quem perde? A família, evidentemente, condenada a virar protagonista involuntária da própria angústia, transformada em gerente de crise, contratando advogado, pagando passagem, fazendo o trabalho que deveria ser feito por quem recebe salário público para isso. O custo do Estado ineficiente nunca recai sobre o Estado. Recai sempre sobre o particular, na forma de luto não resolvido.
Sessenta dias é muito tempo. Tempo suficiente para uma investigação séria produzir resultado, ou para uma investigação frouxa enterrar definitivamente as pistas. A pergunta que abre e fecha esta coluna é simples e incômoda: se cada brasileiro paga, via imposto, pela suposta proteção consular no exterior, por que essa proteção só aparece nos discursos de posse e nunca nos casos concretos? Quem paga é o trabalhador. Quem recebe é a estrutura. E quem some, some sozinho.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.