O termômetro despenca e, com ele, despenca também a qualidade do sono de meio país. O corpo humano, essa máquina biológica que funcionou perfeitamente bem por milhares de anos sem prescrição médica, precisa de uma queda gradual na temperatura interna para mergulhar no descanso profundo. Quando o ambiente está gelado, a periferia do organismo se contrai para preservar o calor dos órgãos vitais, a circulação se reorganiza, e o cérebro, ocupado em manter você vivo, esquece o pequeno detalhe de desligar a consciência. O resultado é aquela noite virada de lado para lado, contando ovelhas que também estão com frio.
O mercado, claro, tem uma resposta pronta para isso. Existe uma fileira inteira de farmácia dedicada a vender pílulas coloridas com nomes impronunciáveis, fabricadas por conglomerados que faturam bilhões prometendo o que uma chaleira fervente entrega de graça. É curioso como o mesmo Estado que regulamenta, taxa e fiscaliza cada miligrama de princípio ativo desses comprimidos olha com certo desdém para a humilde xícara de chá, que ousa resolver o problema sem precisar de bula, receita azul ou vigilância sanitária. A solenidade institucional não combina com folhas secas, e folha seca não paga lobby.
A valeriana, essa raiz de aparência modesta que os monastérios europeus cultivavam séculos antes de existir indústria farmacêutica, age sobre os mesmos receptores cerebrais que os ansiolíticos modernos miram, sem o pequeno inconveniente da dependência química. A camomila, plantada em qualquer canteiro de quintal, contém apigenina, substância que se liga aos receptores responsáveis pelo relaxamento muscular. O maracujá, o melissa, a lavanda, todas essas plantas operam num registro silencioso e eficaz que constrange a sofisticação dos compostos sintéticos. O que sua bisavó preparava no fogão a lenha era farmacologia avançada, só que sem o intermediário de gravata.
Há um detalhe econômico que merece atenção. Um pacote de camomila custa o equivalente a um cafezinho. Uma caixa de hipnótico controlado custa o salário de meio dia de trabalho de quem ganha pouco, e isso depois de você gastar a manhã na fila do posto para conseguir a receita carimbada. Multiplique pela população insone do Brasil e descobrirá quanto dinheiro circula nessa engrenagem que prefere medicalizar o desconforto humano a sugerir que talvez baste aquecer os pés, fechar a janela e tomar uma infusão antes de deitar. Toda vez que alguém troca o comprimido pela erva, um departamento de marketing chora.
O ritual também importa. Esquentar a água, despejar sobre as folhas, esperar a infusão, segurar a xícara morna entre as mãos, isso tudo é parte do processo neurológico que prepara o organismo para o sono. O corpo entende sinais ancestrais que nenhum frasco de plástico consegue transmitir. Acrescente um cobertor decente, um quarto escuro, o desligamento das telas que jogam luz azul na sua retina como se fosse meio-dia, e o problema chamado insônia invernal se dissolve sem precisar de patente, de receita ou de farmacêutico de plantão. A natureza, essa concorrente desleal, continua oferecendo soluções de graça, e nenhuma agência reguladora ainda descobriu como tributá-la.
Fica a recomendação prática, que é também política sem que se note. Prefira aquilo que cresce no chão àquilo que sai de uma linha de produção. Desconfie de toda solução que exige intermediário caro para um problema que o ser humano resolveu durante toda a sua história sem ajuda institucional. Dormir bem no inverno não é privilégio de quem pode pagar consulta particular, é direito biológico ao alcance de qualquer um que tenha uma chaleira e cinco minutos de paciência. O resto é narrativa vendida por quem ganha com a sua insônia.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.