O ministro escorregou em casa, fraturou o pé, rompeu ligamento e, com isso, cancelou a peregrinação anual ao Fórum Jurídico de Lisboa, evento que se vende como debate acadêmico mas funciona como o que de fato é: confraria de toga e gravata em hotel cinco estrelas no Tejo, com diária paga por quem precisa de boa vontade futura na bancada. O acidente doméstico, ironicamente, foi o único episódio recente em que a gravidade conseguiu impor algum limite a um membro da mais alta corte da República. Quando a lei falha, a física resolve.

Vale lembrar o que é esse fórum antes que o leitor se comova com a imagem do magistrado de muletas. Trata-se de um congresso luso brasileiro onde ministros do Supremo, juízes de tribunais superiores, advogados de banca, lobistas profissionais e empresários com processos bilionários se cruzam em coffee breaks regados a vinho do Douro, todos pagos por escritórios e empresas que, num espantoso acaso, têm interesses concretos diante daqueles mesmos togados. Ninguém vai a Lisboa em abril por amor ao direito comparado. Vai porque é ali que se aperta a mão certa longe das câmeras de Brasília, e a viagem cabe no orçamento de marketing institucional do patrocinador.

Siga o dinheiro e o quadro se ilumina. Quem paga: bancos, empreiteiras, big techs, escritórios que faturam por hora trabalhada em tese de defesa, fundações que existem para terceirizar a hospitalidade que seria escandalosa se feita diretamente. Quem recebe: passagem executiva, hospedagem de luxo, jantar no Belém, palestra com cachê camuflado de honorário acadêmico, e o intangível mais valioso de todos, o acesso. Acesso é a moeda forte do andar de cima, e o Fórum de Lisboa é a casa de câmbio. Chamar isso de evento técnico é o mesmo que chamar de simpósio gastronômico o churrasco em que o fiscal sanitário janta de graça na véspera da vistoria.

A lógica, quando despida do verniz de toga, é brutal em sua simplicidade. Se um juiz aceita hospitalidade financiada por quem litiga perante ele, ou ele é influenciado e portanto comprado, ou não é influenciado e portanto o patrocinador é um idiota que joga dinheiro fora. Como ninguém banca passagem de classe executiva por idiotice, sobra a primeira hipótese. E ainda chamam isso de imparcialidade, palavra que, no dicionário oficial da República, parece significar exatamente o seu oposto, à moda do ministério da paz que faz guerra e do ministério da verdade que mente.

Há algo de profundamente cômico, e ao mesmo tempo revelador, no fato de que foi preciso um tapete mal colocado para impedir o que nenhuma lei de improbidade, nenhum código de ética, nenhuma corregedoria jamais ousou impedir. O Conselho Nacional de Justiça olha para o lado, a imprensa palaciana chama de evento de prestígio, e o contribuinte segue sem entender por que perde causas contra o Estado em ritmo industrial. A resposta está no cardápio do jantar de gala, não no manual de hermenêutica. A toga é leve em Lisboa porque o peso ficou todo na conta de quem não foi convidado a sentar à mesa.

Que se recupere, é claro, porque a brutalidade física não está em jogo aqui, está em jogo a brutalidade institucional de uma casta que se autopremiou com o monopólio da última palavra e ainda quer viajar de graça para discutir, em país estrangeiro, como melhor administrar os bolsos do país de origem. Por algumas semanas, ao menos um togado ficará em casa, lendo processo de verdade em vez de coquetel com patrocinador. É pouco, mas em terra onde o Judiciário virou clube social com poder de prisão, qualquer pé quebrado conta como vitória cívica modesta. Da próxima vez que pedirem reforma do Estado, comecem pelo tapete da sala.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.