Os colombianos foram às urnas e produziram exatamente o resultado que toda democracia em decomposição costuma parir, dois candidatos que se odeiam publicamente mas concordam, sem exceção, que o aparato estatal precisa crescer, gastar mais e mandar em mais coisas. De um lado, Abelardo de la Espriella, advogado de gravata espalhafatosa, especialista em defender narcotraficantes e empresários endinheirados, agora reciclado em justiceiro nacional. Do outro, Iván Cepeda, o senador que herdou a bênção apostólica de Gustavo Petro, ou seja, herdou um país com inflação rebelde, déficit fiscal galopante e uma reforma tributária que transformou Bogotá no laboratório sul americano do confisco progressivo. A imprensa internacional chama isso de polarização. Eu chamo de cardápio fixo num restaurante onde o cozinheiro é o mesmo.

O truque é antigo e funciona desde que o primeiro tirano descobriu que era mais barato dividir o povo do que pagar guardas para contê lo. Pinte um candidato de fascista, outro de comunista, e ninguém repara que ambos vão assinar o mesmo orçamento, aumentar os mesmos impostos, perdoar as mesmas dívidas dos mesmos amigos. Cepeda promete continuar o projeto petrista, aquele que prometeu redistribuir riqueza e acabou redistribuindo apenas o poder de compra do colombiano comum, esmagado pelo peso desvalorizado e pelo gás de cozinha mais caro do continente. De la Espriella promete pulso firme, segurança, ordem, palavras lindas que historicamente sempre significaram a mesma coisa, mais polícia, mais procurador, mais dinheiro saindo do bolso de quem trabalha para sustentar o aparato que vai supostamente protegê lo do vizinho.

Pergunte se, no segundo turno, algum dos dois propõe reduzir o tamanho do governo nacional, diminuir a carga tributária que sufoca o pequeno produtor de café em Antioquia, ou devolver ao cidadão o direito de portar arma sem precisar implorar permissão a três ministérios. A resposta é o silêncio constrangido de quem sabe que o jogo é outro. O jogo é decidir qual facção administrará o butim arrecadado à força. Cepeda quer entregar a chave do cofre aos sindicatos públicos, às ONGs militantes e aos burocratas que escreveram a reforma agrária. De la Espriella quer entregar a mesma chave aos contratistas de obras, às empreiteiras que financiaram sua campanha midiática e aos generais que esperam por verbas reforçadas. Trocam se os beneficiários, mantém se o método.

Há uma lógica brutal aqui que ninguém quer enunciar em voz alta. Se o Estado colombiano arrecada cerca de vinte por cento do produto interno bruto e gasta vinte e cinco, alguém está pagando a diferença, e esse alguém é sempre o mesmo, o cidadão produtivo, descontado pela inflação que o banco central, naturalmente independente apenas no folheto institucional, fabrica para cobrir o rombo. Chamam isso de política monetária expansionista quando o ladrão usa terno. No bairro, chamariam de furto qualificado. A diferença entre Cepeda e De la Espriella, nesse particular, é estética, um vai roubar declamando Pablo Neruda, o outro vai roubar citando a Bíblia. O resultado no contracheque é idêntico.

A propaganda de plantão venderá o segundo turno como momento histórico, decisão civilizacional, encruzilhada da pátria. É a mesma encenação que se repete em Brasília, em Buenos Aires, em Lima, em Caracas antes do desastre completo. Dois candidatos teatralmente opostos disputando o privilégio de comandar a mesma máquina de extorsão, com os mesmos contratos, as mesmas estatais, os mesmos amigos do rei esperando o turno na fila do banquete. O eleitor, coitado, é convidado a escolher entre o cianureto e o arsênico, e ainda agradece pela liberdade de escolha. Quem ganha, ganha o controle do confisco. Quem perde, vai para a oposição reclamar do confisco que ele mesmo praticaria com entusiasmo idêntico se estivesse no governo.

No dia vinte e um de junho, a Colômbia escolherá não um presidente, mas o gerente da próxima rodada de saque legalizado. Os dois candidatos sabem disso. Os financiadores de campanha, que não aparecem nas pesquisas e jamais aparecem nas urnas, também sabem. Só o eleitor segue acreditando que vota em projetos de país, quando na verdade vota em listas de beneficiários. O resto é folclore eleitoral, bandeirinha colorida, comício barulhento, pesquisa de boca de urna. A pergunta que importa, aquela que nenhum dos dois quer responder, continua suspensa no ar bogotano, quem paga a festa e quem recebe os presentes. Enquanto essa pergunta não for feita em voz alta, qualquer resultado é vitória do mesmo time, o time que nunca aparece na cédula.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.