A notícia é curta, quase protocolar, e por isso mesmo merece ser lida com lupa. O diretor interino do ICE, Todd Lyons, comunicou que deixa o posto em maio para seguir carreira na iniciativa privada. Dito assim, soa como aposentadoria bucólica, um senhor cansado trocando o escritório em Washington por uma cadeira de balanço. Quem acredita nessa versão ainda não entendeu como funciona o carrossel de cargos na capital do império. Não é reforma, é transferência de mesa. Sai do lado que gasta o dinheiro público, senta no lado que lucra com o dinheiro público, e no meio do caminho fica a agenda telefônica, que é o verdadeiro patrimônio acumulado.
Pense no ICE como uma indústria, porque é exatamente isso que ele virou. Detenção, deportação, contratos de transporte aéreo, fornecimento de uniformes, software de vigilância biométrica, consultoria jurídica para empresas que importam e exportam mão de obra, contratos com presídios privados que cobram diária como hotel cinco estrelas. Existe um ecossistema de bilhões de dólares orbitando cada assinatura do diretor da agência. O funcionário público que sai hoje do cargo carrega consigo, sem pagar nada por isso, o mapa completo das licitações, dos fornecedores, dos contatos e dos atalhos burocráticos que fez questão de aprender enquanto recebia seu salário pago pelo pagador de impostos. O treinamento foi público, o retorno será privado. O nome disso, em qualquer contabilidade honesta, é subsídio disfarçado.
A porta giratória entre agência de controle e empresa controlada é velha como o primeiro cobrador de pedágio que descobriu ser mais rentável vender o pedágio do que cobrá-lo. Funciona assim: o sujeito regula durante alguns anos, conhece a fundo o labirinto, identifica as brechas, entende quem decide o quê, e depois se oferece ao mercado como tradutor oficial desse mesmo labirinto que ajudou a construir. Quanto mais confusa a regulamentação, mais caro fica o intérprete. É por isso que nenhuma dessas agências jamais simplifica nada. Complexidade é ativo de carreira. O absurdo burocrático de hoje é o contrato de consultoria de amanhã.
Cabe uma pergunta incômoda que a manchete oficial jamais fará. Quem paga a conta desse movimento? Paga o contribuinte americano, que bancou o salário, a segurança, o seguro-saúde e a aposentadoria do funcionário, além de financiar toda a rede de relações que agora será vendida por hora de reunião. Paga também, de maneira indireta, o imigrante que se torna mercadoria processada nessa linha de montagem, porque cada novo contrato de detenção, cada expansão da capacidade de encarceramento, cada software de rastreamento mais invasivo, tudo isso é empurrado por lobistas que ontem usavam o mesmo distintivo que hoje vendem. E recebe quem entra no carrossel. Recebe a empresa que contrata o ex-diretor, recebe o escritório de advocacia que o coloca como sócio ostensivo, recebe o fundo de investimento que agora tem informação privilegiada disfarçada de consultoria estratégica.
O mais delicioso, e por delicioso leia amargo, é a retórica oficial que acompanha essas trocas. Fala-se em servir o país, em missão cumprida, em novo capítulo profissional. A prosa de despedida é sempre igual, redigida por assessoria que cobra por palavra vazia. O que nunca aparece nessas notas é a planilha. Quanto vai ganhar no próximo emprego, com quem vai se reunir nos próximos doze meses, quais contratos da agência passarão pelas mãos dos novos colegas de empresa. Esse silêncio não é casualidade, é engenharia. A opacidade é o serviço prestado. Se o cidadão comum tivesse acesso ao cronograma real dessas transições, entenderia que a democracia representativa, tal como praticada, virou há muito tempo um condomínio fechado onde os moradores trocam de apartamento mas ninguém muda de prédio.
E aqui entra o silogismo que qualquer pessoa de bom senso monta sozinha. Se o Estado cresce, surgem mais cargos de comando. Se os cargos de comando concentram informação e poder de assinar contratos, esses cargos valem fortunas no mercado privado. Se valem fortunas no mercado privado, a ocupação deles deixa de ser serviço público e vira estágio remunerado com bônus de saída. Portanto, cada nova agência, cada nova superintendência, cada novo departamento criado com promessa de resolver um problema coletivo é, na prática, a criação de mais uma baia no hipódromo da porta giratória. A conclusão é inevitável, e vai doer em quem ainda acredita em contos de fadas cívicos. O problema não é o Todd Lyons que vai embora. O problema é a estrutura que garante que sempre haverá outro Todd Lyons chegando, exatamente pelo mesmo motivo, com exatamente o mesmo destino. Quem paga continua sendo você. Quem recebe continua sendo ele.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.