Noventa e oito bilhões de reais. Coloque esse número na frente dos olhos e deixe ele respirar um instante. É quase o dobro do orçamento anual de vários estados brasileiros. É dinheiro que existiu, circulou, financiou operações, pagou fornecedores, enriqueceu intermediários, e agora, no instante em que a conta chega, descobre que não existe mais. Evaporou. Sumiu com a elegância técnica de uma "recuperação extrajudicial", que é o eufemismo de gente fina para dizer que o devedor sentou à mesa, reescreveu as regras do jogo com os credores e saiu andando sem pagar o que devia. Não é crime. É procedimento.
Mas antes de sentir compaixão pelo setor, convém perguntar a pergunta que o jornalismo de referência sistematicamente esquece de fazer: de onde veio esse dinheiro? A resposta é constrangedora na sua simplicidade. Boa parte desse crédito agrícola que hoje não existe mais foi originalmente subsidiada pelo Estado, isto é, pelo contribuinte. O Plano Safra, o Pronamp, o Pronaf, a linha de crédito de tal programa de tal ministério com tal taxa abaixo do mercado, tudo isso é dinheiro confiscado do trabalhador via imposto, canalizado para um setor específico com a bênção de um deputado específico que representa uma bancada específica. O ciclo é bonito na sua perfeição: o Estado tira de todo mundo para dar a alguns, esses alguns investem mal ou são simplesmente azarados, e aí pedem ao Estado que reorganize a dívida, que é outra maneira de dizer que pedem para não pagar. E o Estado, generoso como sempre quando não é com o próprio bolso, acena que sim.
Não se trata de desumanizar o produtor rural médio, que é frequentemente vítima de uma estrutura que não desenhou e não controla. O problema não é o fazendeiro que plantou soja e viu o câmbio virar contra ele. O problema é o arranjo institucional que garante que os ganhos são privados e as perdas são socializadas. Quando o agro vai bem, o lucro fica no bolso de quem produziu, e ainda bem que fica, porque esse é o único regime econômico que faz sentido. Mas quando o agro vai mal, a conta é apresentada aos bancos públicos, ao Tesouro Nacional, ao contribuinte de Belém que nunca pisou num canavial e que vai, sem ser consultado, absorver parte desse calote disfarçado de renegociação. É a privatização do lucro com a socialização do prejuízo, e funciona tão bem que ninguém nem mais percebe que é o que está acontecendo.
A lógica do arranjo é impecável, se você estiver do lado certo. Um setor politicamente organizado, com bancada numerosa e influente no Congresso, com capacidade de travar votações e negociar favores, consegue crédito subsidiado em volumes que o mercado jamais forneceria voluntariamente. Por quê? Porque o mercado exige garantias reais e cobra juros que refletem o risco. O Estado exige votos e cobra gratidão eleitoral, que é um ativo com prazo de validade muito mais longo do que a colheita. Quando o negócio azeda, esse mesmo setor usa essa mesma influência para garantir que os mecanismos de recuperação sejam brandos, que os prazos sejam elásticos, que os bancos públicos seguram a posição sem executar as garantias. O resultado é que noventa e oito bilhões de reais entram em recuperação extrajudicial e ninguém vai preso, ninguém perde cargo, nenhum diretor de banco público é responsabilizado por ter aprovado crédito com risco político em vez de risco econômico.
Há um princípio elementar que qualquer pessoa com raciocínio ainda intacto consegue formular sem precisar de diploma: se o dinheiro pertence a alguém, esse alguém tem o direito de saber como foi usado e de cobrar quando não for devolvido. Quando o dinheiro pertence a todos, na prática não pertence a ninguém, e quem decide como usá-lo é quem tem poder político suficiente para sentar à mesa. O contribuinte brasileiro não sentou a essa mesa. Ele foi a pauta, não o convidado. Ele é o financiador involuntário de um modelo que combina risco sem responsabilidade, crédito sem critério e prejuízo sem punição. Noventa e oito bilhões é o preço de mais um ciclo desse circo. A próxima conta já está sendo gerada.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.