O homem que transformou gol em liturgia nacional, aquele que por quatro décadas foi o mestre de cerimônias do entretenimento bovino que entorpece o brasileiro de domingo a domingo, está sendo cobrado em três milhões e meio de reais por serviços advocatícios supostamente não pagos. O empresário foi à Justiça pedir bloqueio das contas pessoais do narrador e das empresas do seu grupo. Notem a delicadeza do arranjo: o sujeito que ganhou fortunas vendendo a emoção dos outros agora discute, em juízo, se vai ou não pagar quem o defendeu juridicamente quando ele próprio precisou de proteção contra terceiros. A roda gira, e gira rápido.

Há algo de profundamente revelador nessa cena. O narrador esportivo no Brasil nunca foi apenas narrador. Foi garoto-propaganda, foi sócio oculto de campanhas publicitárias bilionárias, foi peça central de uma engrenagem em que a emissora vendia o produto, o produto vendia a cerveja, a cerveja vendia o estádio, o estádio vendia o ingresso, o ingresso vendia o sonho, e o sonho, ao fim de tudo, vendia outra cerveja. Quem pagou essa orquestra durante quarenta anos? O telespectador, claro, em cada gole, em cada parcela do carro novo, em cada boleto do plano de saúde patrocinador. Quem recebeu? O narrador, a emissora, o anunciante, e os advogados que cuidaram para que essa máquina jamais emperrasse nos tribunais. Agora um desses advogados está dizendo que a conta ficou aberta.

O caso ilustra com pureza didática uma lei que vale para reis, ditadores, narradores e qualquer outro figurão que se acostume com o aplauso permanente: a celebridade é um capital volátil, mas a dívida é um capital eterno. Nos tempos antigos, o nobre que se endividava com o usurário florentino podia mandar enforcar o credor numa boa manhã, e o problema se resolvia. Hoje a coisa é mais sutil. O credor entra com uma petição, o juiz despacha, e o sistema bancário, esse braço invisível e obediente do Estado, congela o saldo de quem ontem era intocável. A diferença entre o século quinze e o século vinte e um é apenas a refinada burocratização do estrangulamento.

Reparem na ironia adicional: o narrador construiu sua imagem pública sobre a retórica do esforço, da garra, da paixão, da entrega total ao trabalho. Vendeu durante décadas a fantasia meritocrática do brasileiro que, se gritar mais alto, vence na vida. E agora descobre, na pele, que o jogo de verdade não se ganha no grito, e sim no contrato bem assinado e no honorário pago em dia. A vida não é uma final de Copa do Mundo onde basta um pênalti convertido para ficar bem na fita. A vida é um cartório, e no cartório quem manda é quem tem o papel carimbado na gaveta.

Há ainda o detalhe gourmet do bloqueio judicial atingir não apenas o narrador, mas o grupo empresarial inteiro. Significa que a fortuna acumulada na voz já foi devidamente diluída em CNPJs, holdings, sociedades, possivelmente em algum offshore discreto, naquele balé societário que os ricos chamam de planejamento patrimonial e que os pobres, quando tentam imitar em escala microscópica, chamam de sonegação. A Justiça brasileira, lenta para tudo, costuma ser surpreendentemente ágil quando precisa rastrear o dinheiro de quem deixou de pagar advogado, porque advogado conhece o caminho das pedras e sabe onde mora cada moeda. É um clube fechado se vingando de um sócio inadimplente.

No fim das contas, sobra a pergunta que sempre interessa: quem paga e quem recebe nessa novela? Pagou o telespectador, durante quarenta anos, em cada produto anunciado entre um lance e outro. Recebeu o narrador, e através dele uma cadeia de profissionais que vivem do brilho refletido da fama alheia. Agora um deles quer a sua parte, e o microfone, finalmente, está do outro lado da mesa. O homem que mandava em duzentos milhões de ouvintes terá que aprender, talvez tarde demais, que a única narração que realmente importa na vida adulta é aquela feita pelo oficial de Justiça no momento da penhora.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.