Os números são da LCA Consultoria e referem-se a fevereiro de 2025: a participação das dívidas financeiras na inadimplência total das famílias brasileiras subiu de 36,9% em 2018 para 46,8%. Quase metade de tudo que o brasileiro deve e não consegue pagar é dívida com banco, financeira, cartão de crédito, empréstimo pessoal. O sujeito que antes devia na padaria e no carnê da loja agora deve no rotativo do cartão a juros que fariam um agiota do século XIX corar de vergonha. E diante desse cenário, o que faz o establishment econômico do país? Produz relatórios bonitos, fala em "educação financeira" e sugere que o problema é o consumidor que não sabe fazer conta. Como se o cidadão comum tivesse alguma chance contra um sistema inteiro desenhado para endividá-lo.

A mecânica é tão velha quanto a falsificação de moeda, só que hoje se chama "política monetária". O governo gasta mais do que arrecada, o Banco Central acomoda, o crédito se expande artificialmente, os bancos, que operam sob a bênção e a proteção do aparato regulatório estatal, despejam dinheiro fácil no mercado. O cidadão, vendo o preço de tudo subir e o salário ficar no mesmo lugar, faz o que qualquer ser racional faria num ambiente de sinais distorcidos: toma crédito para manter o padrão de vida que a inflação corroeu. Não é burrice. É a resposta lógica a um estímulo perverso. O sujeito não ficou gastador; o dinheiro dele é que ficou menor. E quem encolheu esse dinheiro tem nome, tem endereço, tem CNPJ e tem imunidade parlamentar.

Perceba a elegância do arranjo. O governo emite dívida e expande a base monetária. Os bancos, cartelizados sob regulação que impede concorrência real, captam barato e emprestam caro, protegidos por um arcabouço legal que torna a inadimplência do pobre um negócio lucrativo para o credor. O spread bancário brasileiro é um dos maiores do planeta, não por acaso, mas por desenho institucional. Cada ponto percentual desse spread é um tributo invisível que o tomador de crédito paga ao sistema financeiro que, por sua vez, é o maior financiador de campanhas eleitorais do país. O dinheiro sai do bolso do assalariado, passa pelo banco, vai para o fundo eleitoral, e volta na forma de regulação que protege o banco. O círculo se fecha com perfeição geométrica. Quem paga? O sujeito que está no Serasa. Quem recebe? O mesmo de sempre.

O salto de dez pontos percentuais em sete anos não é um dado estatístico frio. É a radiografia de uma transferência de riqueza sistemática, silenciosa e perfeitamente legal. Em 2018, a maior parte da inadimplência era com comércio, serviços, contas do dia a dia. Hoje, quase metade é com o sistema financeiro. Isso significa que o brasileiro não está devendo porque comprou televisão demais; está devendo porque entrou na engrenagem do crédito para pagar o que antes pagava à vista, porque o poder de compra do seu salário foi devorado pela inflação que o próprio governo gerou. É como se alguém furasse o pneu do seu carro e depois aparecesse oferecendo guincho a juros compostos.

A solução que o debate público oferece é sempre a mesma: mais regulação, mais programa social, mais crédito direcionado, mais intervenção do Estado para consertar o estrago que o próprio Estado causou. É o piromaníaco vendendo extintor. Ninguém no Congresso, nenhum ministro, nenhum presidente de banco central vai subir num púlpito e dizer a verdade simples: a inadimplência é filha legítima da inflação, e a inflação é filha legítima da irresponsabilidade fiscal, e a irresponsabilidade fiscal é filha legítima de um sistema político que gasta o dinheiro dos outros sem consequência. Enquanto o Estado puder fabricar dinheiro, tributar sem limite e regular a concorrência em favor dos seus financiadores, o brasileiro vai continuar afundando em dívida. Não porque é irresponsável, mas porque vive num jogo em que a banca nunca perde. E a banca, caro leitor, não é só o banco. É o sistema inteiro que decide quanto vale o seu trabalho, quanto custa o seu pão, e quanto você vai pagar de juros pelo privilégio de sobreviver no país que dizem ser seu.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.