Você assina a sentença, respira fundo, acredita que virou a página. Pura ingenuidade. O cartório carimba o fim do vínculo conjugal, mas a teia de cadastros públicos e privados que registrou a sua existência não pisca. Continua lá, intacta, com o sobrenome antigo, o estado civil errado, a dependente que não é mais dependente, o cônjuge meeiro de um imóvel que ninguém atualizou. O divórcio jurídico se consuma em uma tarde. O divórcio burocrático leva meses, custa caro e exige paciência de monge tibetano.

Repare na engenharia do arranjo. Existe um documento mestre, a averbação no registro civil, que deveria conversar com todos os outros sistemas. Não conversa. O cidadão é obrigado a pegar a certidão atualizada e sair peregrinando: Receita Federal para corrigir o CPF, detran para a habilitação, título de eleitor, passaporte, INSS, banco, plano de saúde, condomínio, escolas dos filhos, cartório de imóveis, contratos de aluguel, seguros, previdência privada, corretora, operadora de celular. Cada balcão um carimbo. Cada carimbo uma taxa. Cada taxa um pedacinho da sua liberdade convertido em arrecadação. Acompanhe o caminho do dinheiro e você verá que a separação alheia movimenta uma economia inteira de tabelionatos, despachantes e taxas administrativas que ninguém ousa enxugar.

Há uma lógica simples e implacável aí. Se um sistema único bastasse, o cidadão resolveria tudo em quinze minutos pela internet. Como não basta, multiplicam-se os guichês, e cada guichê emprega gente, cobra emolumento, justifica orçamento. A ineficiência não é defeito, é modelo de negócio. O Estado moderno descobriu que a melhor forma de extrair recurso da população não é o assalto aberto, é o desgaste paciente, a exigência de papel atrás de papel, a multa para quem demorou, o juro para quem atrasou. Chamam isso de organização. Em qualquer outra época, chamariam de extorsão refinada.

O preço de não fazer é pior. Imóvel que continua em nome do casal vira bomba relógio na primeira venda. Plano de saúde com dependente errado nega cobertura na hora da emergência. Conta conjunta esquecida deságua em dívida solidária quando o ex contrair empréstimo. Pensão alimentícia mal averbada vira processo. Beneficiário desatualizado em previdência privada faz a herança ir parar nas mãos de quem você já não suporta. A omissão não é neutra, ela tem preço, e o preço sempre cai no colo do distraído. As coisas são o que são, não o que a sentença diz que deveriam ser.

O conselho prático é monótono mas inevitável. Tire dez vias atualizadas da certidão averbada antes de sair de casa, porque cada órgão vai querer a sua. Faça a lista por escrito, banco a banco, contrato a contrato, e marque um por um. Comece pela Receita, porque o CPF corrigido destrava metade dos demais cadastros. Termine pelos cartórios de imóveis, que são os mais lentos e os mais caros. E aceite que vai gastar. Gastar com reconhecimento de firma, com cópia autenticada, com taxa de averbação, com correio, com tempo. O divórcio é livre, dizem os manuais. Livre da convivência, talvez. Da burocracia que vive da sua infelicidade, jamais.

No fim, a pergunta de sempre. Quem paga essa peregrinação toda? O cidadão que já pagou imposto a vida inteira para sustentar o sistema que agora cobra dele de novo para corrigir o que o próprio sistema não conseguiu integrar. Quem recebe? A cadeia inteira de tabeliães, taxas e órgãos que faturam alto sobre o pior momento da sua vida. O casamento acabou. O contribuinte continua casado com o leviatã, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, e desse não há divórcio averbável.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.