Vinte e um quilos de ouro, avaliados em cerca de quinhentos e sessenta milhões de ienes, foram depositados em silêncio no escritório da rede municipal de água de Osaka por um doador que preferiu não dar as caras. O destino do metal, segundo o próprio ente público, é a renovação das tubulações envelhecidas que cortam a cidade. Pare aqui um instante e respire. A cena é tão prosaica que escapa ao olho desatento, mas dentro dela mora um escândalo silencioso, daqueles que só os cegos voluntários conseguem não enxergar. Um cidadão privado, do próprio bolso, financiou o conserto daquilo que o contribuinte japonês já paga, em tributos, há gerações.
Convém perguntar, com a frieza de quem examina um cadáver na mesa de necropsia, onde foi parar o dinheiro dos impostos cobrados em Osaka durante as últimas quatro ou cinco décadas. O sistema de abastecimento de água é o exemplo de manual daquilo que o Estado moderno reivindica como sua razão de ser, o serviço essencial, o monopólio natural, a justificativa cantada em coro para que ninguém ouse questionar o tamanho do aparelho. Pois bem, o monopolista falhou. Falhou na função mais elementar, manter os canos inteiros. E foi salvo, no estilo conto de fadas medieval, por um benfeitor anônimo que decidiu fazer com o próprio patrimônio aquilo que o leviatã não fez com o patrimônio alheio.
A narrativa oficial vai vender o episódio como prova da bondade humana, da virtude cívica, do espírito comunitário japonês, e tudo isso talvez seja verdade na parte do doador. O que ela jamais dirá é a parte que importa, ou seja, que a doação é, na prática, um atestado de óbito moral da burocracia municipal. Se o conserto dependia de meio bilhão em ouro caído do céu, é porque o orçamento ordinário, aquele recheado de salários, gratificações, comissões, estudos preliminares, consultorias e licitações infinitas, não estava produzindo cano nenhum. Estava produzindo, isto sim, contracheque. O ouro veio cobrir a diferença entre o que se arrecada e o que efetivamente se entrega, e essa diferença tem nome técnico antigo, chama-se desvio, ineficiência, parasitismo institucionalizado.
Há uma ironia histórica fina demais para passar batida. Durante séculos, o ouro foi o suor congelado da civilização, a mercadoria que nenhum rei conseguia imprimir, o limite físico imposto à sanha dos governantes que viviam diluindo a moeda para pagar suas guerras e palácios. Foi justamente para fugir desse freio que os Estados modernos inventaram o papel sem lastro, a inflação como confisco invisível, o imposto que não precisa de assinatura de lei porque opera pela impressora. E agora, em pleno século vinte e um, é o ouro físico, o velho metal incômodo, que reaparece para tapar o buraco deixado pela administração que se sustenta na fantasia do papel. O passado civilizatório voltou para resgatar o presente civilizado. Há piadas que se contam sozinhas.
Note ainda quem paga e quem recebe nessa dança. Paga o doador, do próprio bolso, sem contrapartida visível. Recebem os moradores de Osaka, que terão água, e recebem também, com sorriso discreto, os mesmos burocratas que falharam na entrega original e que agora vão administrar a obra como se o mérito fosse deles. Receberão fotos em jornais, declarações solenes sobre o compromisso renovado com o cidadão, talvez uma medalha ou duas. O doador continuará anônimo, como convém à dignidade de quem age por dever e não por vaidade, enquanto a casta dirigente embolsa o capital simbólico do feito alheio. O confisco do crédito é primo legítimo do confisco fiscal.
A lição não está no Japão, está no espelho. Toda vez que a iniciativa privada precisa entrar para resolver o que o monopólio estatal jurou de pés juntos que só ele poderia resolver, fica exposta a fraude original do contrato social moderno. Cobra-se em nome do serviço, entrega-se o serviço pela metade, e quando o cano arrebenta apela-se à boa vontade de quem ainda tem o que dar. Se a generosidade de um único homem anônimo é capaz de bancar a infraestrutura de uma metrópole, talvez a pergunta legítima não seja como agradecê-lo, mas por que diabos continuamos a sustentar uma estrutura inteira que precisa dele para funcionar.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.