O sujeito chega na blitz, abaixa o vidro, e o guarda pede o documento. Ele tira o celular do bolso com a confiança de quem foi convencido de que o futuro chegou, mas a tela está preta. Bateria zerada. Ou pior, a tela acende, ele digita a senha, abre o aplicativo, e aparece aquela roda girando enquanto o servidor distante decide se vai ou não confirmar que aquele cidadão existe. Enquanto isso, o trânsito atrás buzina, o guarda perde a paciência, e o homem descobre, na pele, que sua identidade agora é refém de uma conexão de dados que ele não controla, num servidor que ele não vê, operado por uma burocracia que ele não escolheu.

Vendiam isso como modernidade. Praticidade. Sustentabilidade, porque ninguém mais ia precisar de papel. Repare como toda novidade estatal vem embalada em três adjetivos bonitos para esconder o quarto, que é sempre o mesmo: controle. O documento físico tinha um defeito grave do ponto de vista de quem manda, ele estava na sua mão, na sua carteira, no seu bolso, e funcionava sem pedir licença a ninguém. Não havia log, não havia rastro, não havia o registro centralizado de quantas vezes você o apresentou, onde, e a quem. O plástico era mudo. O aplicativo é tagarela.

Vamos ao essencial, porque é onde mora a graça. Para o cidadão, o documento digital é uma facilidade que falha no pior momento possível. Para o Estado e seus parceiros particulares, é uma mina de ouro. Cada autenticação gera dado, cada dado gera dossiê, cada dossiê gera poder. Empresas de tecnologia faturam contratos polpudos para hospedar a infraestrutura, consultorias faturam para implementar, fornecedores faturam para manter, e tudo isso pago com o imposto que sai do bolso de quem agora precisa rezar para o sinal de quatro G funcionar na hora da fiscalização. O fluxo é elegante: você paga para ser monitorado, e ainda agradece pela conveniência.

A lógica é simples e implacável. Se um sistema só funciona quando bateria, internet, servidor e aplicativo estão todos alinhados nos astros, então esse sistema é frágil por construção. Se ele é frágil por construção e ainda assim foi imposto como padrão, então a fragilidade não é defeito, é recurso. Quando o cidadão depende de uma cadeia de intermediários técnicos para provar quem é, ele deixou de ser sujeito de direitos e passou a ser usuário de um serviço, com termos de uso que ele nunca leu e atualizações automáticas que ele nunca autorizou. A diferença entre súdito e cidadão sempre foi essa, quem precisa pedir permissão para existir já perdeu metade do jogo.

Há uma palavra antiga para descrever a relação em que um homem livre entrega voluntariamente as ferramentas da própria autonomia em troca de comodidade prometida. Os gregos chamariam de tirania consentida, os romanos chamariam de clientelismo, e os medievais chamariam de vassalagem. Nós, que somos modernos e esclarecidos, chamamos de aplicativo oficial. O nome muda, a estrutura é a mesma. Você jura lealdade, recebe um símbolo de pertencimento, e em troca abre mão de andar pelo mundo sem ter que apresentar prova digital de cidadania a cada esquina. A novidade é estética, o arranjo é tão velho quanto o primeiro coletor de tributos do Egito.

O que se chama aqui de falha técnica, celular travado, bateria fraca, aplicativo que não abre, é apenas o sintoma visível de uma escolha política que ninguém submeteu a debate sério. Trocaram o que era seu por algo que está na nuvem, e a nuvem, convém lembrar, sempre pertence a alguém. Quando esse alguém decidir, por motivo de segurança nacional, prevenção a fraudes, ou qualquer outro pretexto reluzente, que determinado documento ficará suspenso por algumas horas, dias ou semanas, o cidadão descobrirá que sua liberdade de ir e vir tinha um botão de desligar, e que a mão no botão não era a dele. Quem pagou pela festa? Você. Quem ficou com o controle remoto? Adivinhe.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.