A previsão é objetiva e não pede licença ao Planalto: dois ciclones extratropicais avançam sobre o Brasil, com chuva intensa, vendavais e o cardápio completo de transtornos entre o Sul e o Sudeste. Até aí, meteorologia. O problema começa quando o fenômeno atmosférico desembarca no noticiário e, antes mesmo que a primeira telha voe, já se ouve o farfalhar de papéis em Brasília, calculando quantos decretos, quantas medidas provisórias e quantos fundos emergenciais cabem dentro de uma frente fria.

Há algo de quase litúrgico no espetáculo. O céu escurece, o vento dobra a árvore, o repórter de capa de chuva amarela aponta para a poça e, do outro lado da tela, surge a autoridade competente prometendo agir com firmeza contra as nuvens. Nenhum município reformou bueiro, nenhuma prefeitura desobstruiu córrego, nenhuma secretaria fiscalizou ocupação irregular em encosta, mas todos, sem exceção, descobrem na véspera da tempestade uma vocação heroica para a logística da calamidade. É o velho truque do incendiário que se candidata a chefe dos bombeiros, repetido com tamanha frequência que virou tradição nacional.

Convém olhar para onde o dinheiro corre quando o vento sopra. Calamidade decretada é cheque em branco. Dispensa de licitação, contratação emergencial, compra de cestas básicas a preço de joia, aluguel de caminhão pipa cobrado em ouro, consultoria de gestão de risco contratada às pressas com aquela empresa que, por coincidência cósmica, pertence ao primo do secretário. A enchente passa, a lama seca, mas a nota fiscal permanece, imune a qualquer ciclone, e o contribuinte, esse coitado que paga imposto até para respirar, descobre meses depois que financiou três vezes o mesmo reparo no mesmo asfalto que continua afundando.

A lógica é simples e implacável, daquelas que não admitem rodeio. Se a função primordial do poder público fosse de fato proteger vida e propriedade, drenagem urbana seria obra prioritária, plano diretor seria respeitado, e ninguém construiria conjunto habitacional em área de risco com selo oficial de qualidade. Como nada disso acontece, a conclusão se impõe sozinha: a tragédia não é falha do sistema, é parte do sistema. Cada desabamento previsível alimenta um orçamento extraordinário, e cada orçamento extraordinário alimenta uma cadeia de fornecedores fiéis que, em ano par, devolvem o favor em campanha eleitoral.

Enquanto isso, o cidadão comum faz o que sempre fez nos últimos quinhentos anos de chuva torrencial neste país tropical: tira o carro da garagem, levanta os móveis, reza o que sabe rezar e tenta salvar o pouco que possui da fúria combinada das águas e dos arrecadadores. Ninguém vai indenizar o pequeno comerciante que perdeu o estoque, ninguém vai cobrir a oficina que virou piscina, mas haverá fotos solenes de helicóptero sobrevoando o caos, discurso comovido em rede nacional e, na semana seguinte, um pacote bilionário de recuperação que recupera, sobretudo, a popularidade de quem o anuncia.

Os ciclones, esses, vão passar como sempre passam, indiferentes ao calendário político e à oratória dos governadores. O que não passa é o arranjo que transforma cada gota d'água excedente em pretexto para mais imposto, mais regulação, mais subsídio dirigido, mais poder concentrado nas mesmas mãos de sempre. Quando tudo secar, fique atento ao que ficou molhado de dinheiro público escorrendo para os bolsos certos. A natureza é cíclica; a pilhagem, perene.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.