O dólar bateu R$ 4,95 e, como num passe de mágica coreografado, surgiu o coro dos entusiastas de sempre, ministros posando de estadistas, comentaristas de televisão descobrindo, por mera coincidência, que o governo estava certo o tempo todo. Mas antes de engrossar a claque, convém olhar para o motivo real da queda. O dólar não caiu porque o Brasil ficou mais produtivo, porque a dívida encolheu, porque a máquina parou de imprimir papel. Caiu porque um estreito a quinze mil quilômetros daqui, em Ormuz, voltou a deixar petroleiros passarem. Eis a soberania cambial da República, refém do humor de aiatolás e porta-aviões.

É bom que o leitor guarde esta imagem, porque ela explica quase tudo. A moeda que está no seu bolso não é medida de riqueza, é instrumento político. Sobe e desce conforme a geopolítica de terceiros, a taxa de juros americana, a ansiedade de quem segura títulos do Tesouro. Você trabalha em real e planeja a vida em real, mas o preço do real é decidido em salas fechadas onde ninguém jamais ouviu falar de você. Chamam isso de câmbio flutuante. Mais honesto seria chamar de câmbio flutuando ao sabor do vento alheio.

Agora, siga a trilha do dinheiro, que é onde mora a verdade. Dólar barato beneficia quem? O importador que ganha margem no container já contratado, o banco que desmontou posição vendida na hora certa porque tem linha direta com quem precifica, o Tesouro que se vangloria de dívida externa mais barata nesta fotografia. Perde quem? O exportador que recebe menos real pelo mesmo grão, o produtor do interior que compete com o similar chinês recém barateado, o aposentado que comprou dólar a R$ 5,80 tentando se proteger do confisco silencioso que anda chamando de inflação oficial. Sempre os mesmos ganham, sempre os mesmos perdem, e no meio fica o discurso televisivo de que a economia vai bem.

Há uma tradição antiga, muito antiga, de governantes raspando as bordas das moedas metálicas para gastar mais sem confessar o rombo. Os súditos recebiam as mesmas moedas, com o mesmo rosto do soberano, pesando um pouquinho menos a cada reinado. O truque atual é mais sofisticado, mas o princípio é idêntico. Em vez de raspar metal, aperta-se um botão. Em vez do ferreiro da Coroa, temos o economista de gravata explicando que emitir é estímulo, que regular é proteger, que gastar é investir. A diferença entre o mestre da Casa da Moeda medieval e o técnico de hoje é o tamanho do diploma. O golpe é o mesmo.

Por isso toda comemoração por dólar baixo merece desconfiança. O câmbio é termômetro, não remédio. Se a febre cai porque o paciente melhorou, ótimo. Se cai porque alguém quebrou o termômetro ou porque o vento mudou lá fora, a doença continua, apenas mais bem maquiada. E a doença, aqui, tem nome conhecido: gasto público que não cabe no orçamento, dívida que cresce mais rápido que a economia, juro alto para compensar a farra fiscal, contribuinte sangrado duas vezes, uma pelo imposto direto, outra pela corrosão invisível do que sobrou no bolso. Celebrar R$ 4,95 nesse quadro é como comemorar que a goteira diminuiu enquanto o telhado inteiro ameaça desabar.

Fica, portanto, a pergunta que abriu e que fecha, sempre a mesma. Quem paga essa volatilidade toda, essa festa intermitente, essa promessa renovada de que agora vai? Paga quem não tem como se proteger, quem não opera em Bloomberg, quem não almoça com diretor de banco central. Quem recebe? Os de sempre, os bem posicionados, os amigos do andar de cima, os que sabem com três dias de antecedência o que a imprensa vai descobrir na segunda. O resto é folclore. O dólar caiu, o real respirou, o súdito aplaudiu, e a mão que aperta o gatilho monetário continua exatamente onde estava, pronta para o próximo truque.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.