O dólar fechou abaixo de cinco reais e a Bolsa de Valores renovou seu recorde histórico. Os jornais celebram, os analistas de mercado ajustam suas gravatas e sorriem para as câmeras, e o ministro da Fazenda certamente já ensaia o discurso em que toma para si o crédito. Falta combinar com os fatos. O que moveu o mercado nesta sessão não foi nenhuma política fiscal brilhante concebida em Brasília, nenhuma reforma estrutural, nenhum gesto de responsabilidade orçamentária. Foi a expectativa de um acordo entre Estados Unidos e Irã. Leia de novo: a cotação da sua moeda, o preço do seu arroz, a parcela do seu carro, tudo isso oscilou porque dois países a dez mil quilômetros de distância sinalizaram que talvez, quem sabe, possivelmente, não entrem em guerra esta semana. E isso, meu caro leitor, é vendido como boa notícia.
Convém perguntar o que sempre se deve perguntar: quem ganha com isso? Quando o dólar cai, o exportador perde margem e o importador sorri. Quando a Bolsa sobe, quem tem ações fica mais rico no papel, e quem vive de salário continua exatamente onde estava, só que agora ouvindo no jornal das oito que "a economia vai bem". O sujeito que faz bico para pagar o aluguel não tem ação na B3, não compra dólar, não opera futuro. Mas vai pagar a conta quando o vento virar, porque o vento sempre vira. O mercado financeiro é um cassino onde os lucros são privados e os prejuízos, quando a coisa desanda, são socializados via Tesouro Nacional, que é um jeito elegante de dizer: via o seu bolso.
A estrutura do raciocínio é simples e qualquer pessoa honesta a enxerga. Se a saúde da economia brasileira depende de variáveis que nenhum brasileiro controla, então a economia brasileira não é saudável, está apenas num intervalo entre crises. Um corpo que só funciona enquanto recebe transfusão não está curado, está no CTI. O real não se fortaleceu porque o Brasil ficou mais produtivo, mais livre, mais competitivo. O real se fortaleceu porque o petróleo reagiu a rumores geopolíticos, porque o apetite global por risco aumentou momentaneamente, porque fundos estrangeiros decidiram que, por algumas horas, valia a pena apostar em mercados emergentes. Amanhã, se um general iraniano der uma entrevista belicosa ou se um senador americano torpedear as negociações, tudo se reverte. E Brasília continuará sem ter feito nada, nem para o bem nem para o mal, que é, aliás, o que ela faz de melhor: nada que preste.
O que ninguém menciona na euforia do pregão é que a taxa básica de juros continua obscena, que a dívida pública segue numa trajetória que faria um agiota corar, e que o governo federal gasta mais do que arrecada com a naturalidade de quem paga a conta com o cartão dos outros. O recorde da Bolsa convive alegremente com um Estado que consome mais de um terço de tudo que o país produz, que tributa o trabalho como se fosse pecado e subsidia a ineficiência como se fosse virtude. A Bolsa sobe não apesar do parasitismo estatal, mas em parte por causa dele: empresas que dependem de contratos públicos, bancos que lucram com a dívida soberana, empreiteiras que mamam em licitações dirigidas. O dinheiro circula, sim; a questão é de qual bolso ele sai e em qual bolso ele entra.
Há uma velha lição que a história ensina a quem tem paciência de ouvi-la: toda vez que um governo comemora números de mercado como se fossem conquistas próprias, o cidadão deveria conferir o extrato bancário. Quando Roma celebrava suas conquistas com desfiles triunfais, o trigo que alimentava a plebe já estava mais caro. Quando a corte de Luís XVI ostentava Versalhes, o camponês francês já não conseguia comprar pão. A distância entre o indicador econômico e a vida real é a distância entre o palácio e a rua, e nenhum gráfico de Bolsa em alta jamais encheu a geladeira de quem ganha um salário mínimo. O dólar abaixo de cinco reais é uma notícia. A pergunta certa não é se isso é bom ou ruim, mas para quem é bom e por quanto tempo dura. Porque quem paga, no fim, é sempre o mesmo.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.