O estádio do Wrexham, pedaço de chão galês que viu bola rolar antes de existir lâmpada elétrica nas casas, acaba de receber a extrema-unção do entretenimento global. Cento e poucos milhões de dólares serão despejados para transformar o velho Racecourse Ground em algo mais apresentável às câmeras, aos patrocinadores e, sobretudo, aos algoritmos de plataformas de streaming que fizeram do clube o queridinho mundial. O investidor-mor é um ator de Hollywood conhecido por interpretar um mercenário de colante vermelho. Coincidência impressionante: quanto mais o clube aparece na série documental, mais o valor da marca sobe, e quanto mais o valor sobe, mais justificável fica derrubar a arquibancada centenária e erguer outra, com camarote, tela de LED e preço de ingresso que expulsa o torcedor que sustentou aquela grama por um século e meio.

Convém parar o violino antes que a orquestra engane o ouvido. Ninguém despeja nove dígitos num clubezinho da quinta divisão inglesa por amor ao esporte. O arranjo é limpíssimo quando se olha sem o filtro cor-de-rosa da imprensa esportiva: compra-se barato uma relíquia sentimental, filma-se o processo como se fosse novela, vende-se o produto audiovisual por assinatura mensal, usa-se o estádio reformado como cenário permanente e ainda se embolsa o valuation do clube, que multiplicou por mais de vinte vezes desde a aquisição. É o negócio perfeito do século, e o romantismo é só a embalagem. Todo investimento que se apresenta como caridade tem, escondido na letra miúda, um retorno que faria corar qualquer banqueiro de Wall Street.

A lógica é velha conhecida de quem já viu cidade ser repaginada pela máquina do espetáculo. Chama-se isso de modernização, requalificação, revitalização, e o resultado invariável é o mesmo: o antigo frequentador é empurrado para fora porque deixou de caber no modelo de negócio. O operário que levava o filho ao jogo por meia dúzia de libras descobre, depois da reforma, que o ingresso passou a custar o salário de um dia. A continuidade histórica que os folhetos do clube tanto celebram serve apenas como ornamento de marketing; a comunidade real que construiu aquela continuidade é convidada a assistir pela televisão. A história vira figurino, o torcedor vira figurante, e o lucro vira dos donos. Nada particularmente novo desde que os mercadores descobriram que nostalgia se vende melhor que produto novo.

Há ainda o detalhe piedosamente omitido nas reportagens sobre o assunto: parte relevante desse tipo de reurbanização costuma vir amarrada a benefícios fiscais, isenções municipais, contrapartidas públicas e aquele velho arranjo em que o ente estatal participa do risco, mas não do bônus. O dinheiro do proprietário privado aparece nas manchetes, a conta paga pelo contribuinte galês dorme nos rodapés dos relatórios. Quando a reforma dá certo, o crédito é do visionário de Hollywood; quando dá errado, a prefeitura absorve o prejuízo em nome do patrimônio local. Socializa-se o risco, privatiza-se o lucro, e a imprensa bate palmas porque viu um ator simpático cortando a fita de inauguração. O truque é tão antigo que já deveria ter o próprio verbete no dicionário.

A ironia final é que o estádio, antes da chegada dos novos donos, era o que precisava ser: um lugar onde se jogava bola. Pontos. Hoje virou ativo audiovisual, ativo imobiliário, ativo de branding, ativo de qualquer coisa menos ativo esportivo. O futebol em si tornou-se pretexto, desculpa narrativa para sustentar o produto real, que é a emoção empacotada, licenciada e transmitida em alta definição. Um dia desses o clube descobre que pode jogar sem bola, desde que a câmera continue ligada, e aí o círculo se fecha. O templo mais antigo do mundo sobrevive, sim, mas como museu tematizado de si mesmo, com cafeteria, loja oficial e ingresso dinâmico conforme a demanda.

Resta a pergunta original, aquela que nunca muda por mais que o cenário se sofistique. Quem paga? O torcedor histórico expulso pelo novo preço, o contribuinte que subsidia a obra em nome do interesse público, o assinante global que banca o espetáculo sem saber que banca. Quem recebe? O fundo de investimento por trás do ator, o ator por trás do fundo, a plataforma que vende o conteúdo, o patrocinador que aluga o nome. O estádio mais antigo do mundo continua de pé, coitado, servindo de palco para o mesmo teatro que se repete desde que alguém inventou a palavra espetáculo. Muda o cenário, muda o figurino, muda o ator principal. A bilheteria é sempre para a casa.

Com informações do O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.