Raphael Sousa Oliveira, o cérebro por trás da Choquei, acordou ontem na sede da Polícia Federal em Goiânia e foi dormir num presídio goiano, cortesia da audiência de custódia que decidiu que o carrasco do fofoquinha alheia merece provar do próprio cardápio. A simetria é daquelas que a vida raramente entrega com tamanha precisão cirúrgica. Quem construiu império vendendo escândalo, dor e vergonha dos outros, transformando tragédia em engajamento e engajamento em faturamento, agora vira ele mesmo matéria de capa. E o detalhe delicioso é que, desta vez, não há print para editar, legenda para suavizar, emoji para amenizar.

Convém lembrar, antes que a turba da comoção apareça chorando pelos direitos do perfil, que a Choquei não é uma obra de caridade. É um negócio. Um negócio lucrativíssimo, operado na zona cinzenta onde a exposição gratuita de terceiros vira CPM, o linchamento virtual vira campanha paga, e a ausência de apuração vira modelo editorial. Tudo isso sob o aplauso distraído de milhões de brasileiros que, ao clicar, financiam a engrenagem. Siga o dinheiro e você encontrará o mesmo tripé de sempre: anunciantes que compram atenção, assessorias que compram narrativa, e um público que se recusa a pagar por jornalismo sério mas consome, de graça, o lixo disfarçado de novidade.

A operação que culminou na prisão envolve acusações graves, que irão desfilar no devido processo legal; não cabe aqui antecipar sentença, cabe apenas constatar que o edifício construído com base na exposição alheia é, por natureza, frágil como castelo de areia na maré alta. Quem vive de holofote morre de holofote. As coisas são o que são, e um negócio que floresce na devassa da intimidade de terceiros não tem como reclamar quando a luz finalmente vira para o lado de cá. Se a premissa do modelo é que qualquer um pode ser escancarado sem anestesia, a conclusão inevitável é que, um dia, o próprio operador da máquina entra na esteira. Matemática elementar, só que escrita em carne e osso.

Agora observe a ironia estrutural do arranjo. O Estado, esse monopolista da violência legítima que cobra imposto para manter uma polícia que demorou anos para chegar a este perfil, é o mesmo Estado cujos ocupantes de cargo aparecem semana sim, semana também, posando para selfies com influenciadores do gênero, explorando o mesmo engajamento barato nas campanhas eleitorais. Político adora Choquei enquanto Choquei serve para atacar adversário. Político odeia Choquei no dia em que o holofote se volta para o próprio rabo. O cinismo é a língua oficial da República, e a hipocrisia, seu hino cantado em karaokê.

Enquanto isso, o cidadão comum segue sustentando as três pontas dessa farsa com o suor do seu contracheque. Paga o imposto que financia a polícia, o promotor, o juiz, o presídio onde o novo hóspede dormirá. Paga, via inflação, a degradação do seu poder de compra enquanto o país discute fofoca. E paga, sobretudo, com a atenção, moeda mais valiosa do século, toda vez que abre o aplicativo e alimenta o algoritmo que escolheu, como regra de negócio, a pior versão possível da natureza humana. Há algo de trágico e cômico no espetáculo: a plateia ri do palhaço enquanto o palhaço factura, até que um dia o palhaço vira réu e a plateia, chocada, finge que nunca comprou ingresso.

Resta a velha pergunta, que resume toda política, todo escândalo e toda engrenagem deste país: quem paga e quem recebe? Paga o anônimo exposto sem direito de defesa, paga o pagador de impostos que sustenta o aparato inteiro, paga o leitor que troca neurônio por dopamina barata. Recebe o operador do perfil, recebem as plataformas, recebem os anunciantes espertos, recebem os políticos oportunistas dos dois lados. Quando a roleta vira e o operador perde, a estrutura permanece intacta, pronta para coroar o próximo. Porque o problema nunca foi o nome na conta bancária; foi o modelo que transformou a bisbilhotice em ativo financeiro e o pudor em passivo obsoleto. Troca-se o dono da Choquei, mas o choque segue vendendo muito bem, obrigado.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.