Há uma regra velha como a política que nunca falha: quando o poder abraça alguém da comunicação popular, não é por afeto, é por utilidade. A prisão de Raphael Sousa Oliveira, o sujeito por trás do perfil Choquei, pela Polícia Federal, derrubou um dominó que o Planalto preferia manter em pé. Porque o problema não é o rapaz ter sido preso. O problema é o que a cronologia revela: um influenciador digital com milhões de seguidores mantinha proximidade documentada com o presidente da República e a primeira-dama desde antes da campanha eleitoral de 2022. Não estamos falando de um encontro casual numa fila de padaria. Estamos falando de interações recorrentes, registradas, públicas o suficiente para que qualquer pessoa com dois dedos de curiosidade encontrasse, mas discretas o bastante para que a grande imprensa fingisse não ver.
Agora, façamos o exercício que toda democracia saudável deveria fazer por reflexo, mas que a nossa trata como heresia: sigamos o dinheiro. Um perfil de fofocas com alcance de milhões é, na economia da atenção, uma usina de formação de opinião. Quem controla o que viraliza controla, em boa medida, o que o público médio pensa sobre determinado assunto. E quando o governo federal se aproxima desse tipo de operador, não é para discutir a última novela das nove. É para ter, no bolso do colete, um canal de comunicação que não cheira a propaganda oficial, mas que cumpre exatamente a mesma função. O velho truque: a mensagem mais eficaz é aquela que o receptor não identifica como mensagem. O sujeito acha que está consumindo entretenimento, e na verdade está sendo conduzido por um funil narrativo cuidadosamente irrigado por quem tem acesso ao cofre público.
É curioso como funciona a memória seletiva do establishment midiático. Quando um influenciador alinhado à direita publica qualquer coisa minimamente controversa, a reação é imediata: CPI, inquérito, manchete em caixa alta, especialistas em democracia digital enfileirados nos telejornais como santos de procissão. Mas quando o apadrinhado é do campo correto, o silêncio é ensurdecedor. O Choquei operava numa zona cinzenta deliciosa para o poder: não era mídia tradicional, logo não precisava prestar contas como mídia; não era assessoria de imprensa, logo não aparecia nos registros oficiais; não era militância declarada, logo podia fingir neutralidade. Era, na prática, o melhor dos mundos para quem quer propaganda sem o rótulo de propaganda. E o Planalto sabia disso, porque frequentava essa proximidade como quem frequenta um fornecedor de confiança.
A questão que deveria incomodar qualquer contribuinte minimamente consciente é a seguinte: essa proximidade tinha contrapartida? E se tinha, de que natureza? Porque no Brasil contemporâneo, onde o governo federal controla direta ou indiretamente um dos maiores orçamentos publicitários do planeta, a fronteira entre "parceiro de conteúdo" e "beneficiário de verba pública" é mais fina que papel de seda. Não é preciso que haja um contrato assinado com carimbo e firma reconhecida. Basta um aceno, um convite, um acesso privilegiado a informações, uma indicação para um evento patrocinado por estatal, e pronto: o ciclo está fechado. O dinheiro do contribuinte financia a máquina de propaganda que protege quem extrai o dinheiro do contribuinte. É uma engrenagem tão antiga quanto os impérios, apenas atualizada para o formato de stories e reels.
O mais revelador de tudo, porém, não é a prisão em si, que pode ter motivações próprias e procedimentos legítimos. O revelador é a reação. Observe quem corre para se distanciar, quem apaga fotos, quem de repente nunca ouviu falar do sujeito. Essa coreografia de abandono é o verdadeiro mapa do arranjo. Porque no jogo do poder, a velocidade com que alguém é descartado é proporcional ao quanto ele sabia. E um homem que tinha trânsito livre entre o Planalto e as fofocas de milhões de brasileiros sabia, no mínimo, o suficiente para que seu silêncio valesse ouro e sua prisão causasse desconforto em corredores bem iluminados de Brasília. A fofoca, afinal, sempre foi a prima pobre da inteligência. A diferença é que, desta vez, a prima pobre jantava no palácio.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.