Existe uma classe de dúvidas modernas que só poderia nascer numa civilização que perdeu o contato com as coisas que usa. A pergunta sobre se é seguro ler no Kindle enquanto ele carrega pertence a essa categoria nobre de angústias, ao lado de saber se o micro-ondas cozinha o cérebro ou se o wi-fi rouba a alma. E, como quase toda angústia tecnológica contemporânea, ela nasce menos da física e mais da desconfiança generalizada em relação ao próprio mundo material que nos cerca.
A resposta técnica é entediante justamente porque é verdadeira. Baterias de íons de lítio, dessas que povoam desde relógios de pulso até carros que custam o preço de um apartamento, possuem circuitos de proteção que interrompem a carga quando a célula atinge a tensão máxima. O aparelho não se recusa a ligar durante a carga porque a engenharia previu, com o cuidado obsessivo dos verdadeiros artesãos do silício, que o ser humano é uma criatura impaciente, incapaz de esperar duas horas para retomar a leitura de um romance russo. Portanto, a arquitetura foi desenhada exatamente para o uso simultâneo.
O que produz calor num Kindle não é o carregamento em si, mas a soma de fatores banais, cabo de má qualidade, fonte genérica comprada em camelô, ambiente abafado, capa de couro sintético que transforma o aparelho em pequena estufa. Um leitor digital em uso normal consome tão pouco que se aproxima do consumo de uma lanterna de geladeira. A tela de tinta eletrônica, aquela invenção silenciosa que ninguém elogia porque não pisca nem faz barulho, é justamente o oposto do smartphone, ela gasta energia apenas quando muda de página. Ler no Kindle carregando é, do ponto de vista energético, quase o mesmo que não fazer nada.
A histeria em torno dessas questões, contudo, tem raiz. Passamos décadas sendo educados por uma indústria de conteúdo que precisa de cliques, e cliques se alimentam de medo. Cada aparelho eletrônico virou suspeito, cada rotina cotidiana virou risco potencial, cada tomada virou armadilha. É a mentalidade do medieval que via demônios em cada eclipse, agora reencarnada em consumidor que teme a própria capa protetora. A ignorância sobre engenharia elementar produziu uma geração que confia em algoritmos opacos de redes sociais, mas desconfia de baterias projetadas com décadas de literatura científica aberta.
Há uma lição maior escondida na trivialidade dessa dúvida. Quando se compra um aparelho de uma empresa séria, que investe pesado em segurança porque um único incêndio destrói bilhões em valor de marca, o que se está adquirindo não é apenas plástico e circuito, é a garantia tácita de que engenheiros anônimos suaram sobre planilhas de tolerância térmica para que ninguém precisasse pensar no assunto. Essa é a beleza da técnica bem feita, ela desaparece no uso, torna-se invisível como o encanamento romano, presente sem exigir reverência. O usuário desconfia porque não vê, e não vê justamente porque a engenharia foi bem executada.
Portanto, leia seu livro digital em paz, carregando, deitado, no sofá, na cama, no chão da sala. O aparelho não vai explodir, a bateria não vai murchar em três semanas, o cabo não vai criar consciência própria e estrangular ninguém durante a noite. Guarde a energia da preocupação para as coisas que realmente merecem, como perguntar por que tantos livros digitais podem ser apagados remotamente da sua biblioteca sem seu consentimento. Aí sim, meu caro leitor, há motivo para alguma inquietação.
Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.