Lula olhou para as câmeras e disse, com aquela solenidade de quem acredita na própria santidade, que Alexandre Ramagem "é um golpista, tem que voltar e cumprir a pena". A frase saiu redonda, ensaiada, com o peso de quem se julga acima do processo que invoca. Vamos desembalar essa embalagem. O presidente da República, aquele mesmo que foi condenado em três instâncias, preso, solto por manobra processual e reeleito com a ficha limpa por decisão de um tribunal que ele próprio ajudou a compor, agora se apresenta como guardião da ordem jurídica brasileira. Se a ironia fosse combustível, o Brasil não precisaria do pré-sal.

O caso Ramagem tem ingredientes que deveriam interessar a qualquer cidadão minimamente atento. Ex-diretor da Abin, preso nos Estados Unidos, acusado de participar de articulações golpistas. Até aí, que a Justiça funcione, investigue, prove e condene, se houver prova. O problema não é o réu, é o promotor autoproclamado. Quando o chefe do Executivo sai na televisão dizendo que alguém "é golpista" antes de qualquer trânsito em julgado, ele não está defendendo a Justiça, está dirigindo a Justiça. E um presidente que dirige o Judiciário é exatamente aquilo que ele finge combater. A diferença entre um Estado de Direito e uma república de bananas é que no primeiro quem acusa não é quem governa. No segundo, o sujeito dá a sentença no Jornal Nacional e espera que o juiz assine embaixo.

Mas sigamos a trilha que realmente importa: a do poder. Por que Lula se pronuncia agora, com essa veemência, sobre Ramagem? Porque Ramagem é peça do tabuleiro adversário, e toda peça do adversário que cai fortalece a narrativa de que o governo atual é legítimo não por mérito, mas por eliminação dos competidores. O jogo não é jurídico, é político. Cada prisão, cada extradição pedida, cada declaração inflamada serve para consolidar uma versão dos fatos em que só existe um lado criminoso e outro virtuoso. Quem conhece um mínimo de história sabe que essa divisão maniqueísta é a ferramenta favorita de todo regime que precisa justificar o uso desproporcional da máquina estatal contra seus opositores. A Roma imperial fazia isso com mais elegância, mas o mecanismo é idêntico.

O que deveria incomodar qualquer pessoa com dois neurônios funcionais não é se Ramagem é culpado ou inocente. Isso cabe ao processo, às provas, ao contraditório. O que deveria causar urticária coletiva é a naturalidade com que um presidente da República se comporta como acusador público, juiz e comentarista, tudo ao mesmo tempo. Não existe república onde o chefe de Estado distribui sentenças em entrevista. Existe autocracia com verniz democrático. E o mais espantoso é que a mesma imprensa que passou anos denunciando supostas interferências de Bolsonaro na PF e na Abin agora assiste Lula transformar coletiva de imprensa em tribunal e acha perfeitamente normal. O critério, como sempre, não é institucional; é partidário.

Reparem no padrão: quando o aliado é preso, é perseguição política, lawfare, abuso do sistema. Quando o adversário é preso, é a Justiça funcionando, é golpista que tem que pagar. A régua muda conforme a camisa. Isso não é Estado de Direito, é Estado de conveniência. E o contribuinte, aquele ser silencioso que financia toda essa ópera, paga a conta dos dois lados, paga o salário do presidente que acusa, do juiz que julga, do avião que extraditará, do presídio que encarcerará, e no fim ainda ouve que tudo isso é feito em nome dele. A pergunta que ninguém na grande imprensa faz, porque a resposta é inconveniente, é simples: se a Justiça é tão independente assim, por que precisa do aval presidencial em rede nacional?

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.