Sábado à noite, jantar em Washington, disparos, um homem de trinta e um anos imobilizado pelo Serviço Secreto, e antes que o cheiro da pólvora baixasse, o ocupante da Casa Branca já tinha o veredicto pronto, embrulhado em duas palavras de algodão: "pessoa doente". É curioso como o vocabulário do poder, em qualquer latitude, encontra sempre o mesmo atalho retórico para esvaziar o incômodo. Não é um inimigo político, não é um descontente, não é o sintoma de nada que mereça investigação fria; é um doente. Um caso clínico. Uma anomalia biológica que dispensa qualquer leitura mais profunda do tecido social que produziu o gatilho.

Reparem na engenharia da frase, porque ali mora o truque mais antigo do manual. Quando se chama o agressor de doente, faz-se duas coisas ao mesmo tempo: terceiriza-se a culpa para a psiquiatria e desautoriza-se qualquer hipótese de que o ataque tenha conteúdo, motivo, contexto, raiz. O homem virou patologia ambulante, e patologias não se discutem, se medicam. É o mesmo expediente que reis usavam quando atribuíam pestes ao desígnio divino: tirar o evento da arena humana, onde se pode questionar quem mandou, quem pagou, quem ganhou, e jogá-lo num plano onde só cabe resignação.

Agora, sigamos o dinheiro, porque é aqui que a coisa fica interessante. Cada tiro disparado em Washington vira orçamento. Vira pedido de mais verba para o Serviço Secreto, mais tecnologia de vigilância, mais perímetro fechado, mais escâner, mais consultoria de segurança contratada de empresas com lobby instalado a três quarteirões do Capitólio. O atentado, real ou frustrado, é o combustível mais barato da indústria do medo, e essa indústria não vive de prevenção, vive de manchete. Quanto mais "pessoas doentes" aparecem, mais o cidadão comum, esse que paga o imposto e não janta com presidente, aceita ser revistado, fichado, monitorado, em nome de uma proteção que jamais o alcançará.

Há ainda o detalhe delicioso de que a classe política, a mesma que se diz vítima da violência insana, é precisamente a que monopoliza o uso legítimo da força e o desmonta na mão do cidadão comum. O sujeito que reage em casa é criminoso, o sujeito que invade país estrangeiro com bombas teleguiadas é estadista. A violência, aprendam, não é um problema moral em si; é um problema de licenciamento. Quem tem licença, opera; quem não tem, é doente. O resto é literatura.

Vai se descobrir, nas próximas semanas, que o atirador tinha histórico, tinha redes sociais, tinha alguma fixação, alguma trilha digital que vinte agências viram passar e ninguém leu. Sempre é assim. O orçamento bilionário que jura proteger o cidadão falha sistematicamente em prever o óbvio, e quando falha, pede mais orçamento. É a única atividade humana em que o fracasso é matéria-prima da expansão. Imaginem um restaurante que servisse comida estragada e, a cada cliente passando mal, exigisse aumento de preço para "melhorar a higiene". Pois é exatamente o modelo de negócio do aparato estatal de segurança, e funciona porque a plateia continua aplaudindo o garçom.

No fim, a pergunta é a de sempre, a única que importa, a que ninguém quer fazer no microfone do pronunciamento solene. Quem paga essa festa toda, do jantar ao perímetro, da escolta à manchete? O contribuinte, sempre o contribuinte, esse personagem invisível que financia tanto o palco quanto o espetáculo do medo que o convence a continuar pagando. E quem recebe? Os mesmos de sempre, os fornecedores fardados e engravatados de um Estado que descobriu, há muito, que vender insegurança rende mais que vender ordem. Chamar o atirador de doente é confortável; chamar o arranjo de saudável é que seria o verdadeiro delírio.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.