Bastou a República Democrática do Congo e Uganda registrarem novos focos do ebola para que a burocracia sanitária internacional saísse do torpor com a velocidade de um cobrador de aluguel atrasado. O vírus, é verdade, é antigo conhecido das florestas equatoriais, circula entre morcegos frugívoros, salta para primatas, eventualmente atinge caçadores e aldeões que dependem da carne silvestre para não morrer de fome. Isso é zoologia, é miséria, é geografia. O que se sobrepõe ao fato bruto, contudo, é a coreografia previsível dos comunicados oficiais, das manchetes em letra garrafal e das agências multilaterais reciclando o mesmo libreto que já vimos em 2014, em 2018, em 2020. Muda o patógeno, não muda o roteiro.
Convém olhar para o esqueleto da coisa antes que a emoção dissolva o raciocínio. Há um surto localizado, em duas nações empobrecidas, com sistemas de saúde sucateados por décadas de cleptocracia tropical e ajuda externa que enriquece consultores em Genebra mais do que enfermeiras em Kinshasa. Disso se conclui, com a inevitabilidade de uma soma aritmética, que o problema é, antes de tudo, local, contornável por isolamento, rastreio e cuidados básicos. Mas a conclusão que nos vendem é outra, infinitamente mais útil para certos bolsos: trata se de ameaça global, exige resposta coordenada, requer fundos emergenciais, justifica novos tratados, novas vigilâncias, novos poderes. Da premissa modesta extraem a conclusão monumental, e ninguém se incomoda com o salto.
Siga o rastro do dinheiro e a paisagem se ilumina como cidade ao anoitecer. Cada surto anunciado com pompa destrava verbas de bancos multilaterais, libera contratos de compra antecipada de vacinas que estavam encalhadas em depósitos, alimenta ONGs que cobram diárias em dólar para entregar relatórios em PDF, sustenta congressos em hotéis de cinco estrelas onde se discute, com ar grave, a pobreza alheia. As farmacêuticas que desenvolveram imunizantes contra o ebola na última década precisavam de uma ocasião para escoar estoques e renovar pedidos governamentais. A indústria do pânico sanitário aprendeu, depois de 2020, que a peça de teatro é lucrativa do primeiro ao último ato, e que o público, devidamente assustado, paga ingresso e ainda agradece.
Há ainda o detalhe incômodo de que as mesmas instituições que hoje pedem confiança cega gastaram os últimos cinco anos provando que não a merecem. Erraram diagnósticos, esconderam dados, recomendaram absurdos, perseguiram médicos dissidentes, e quando a poeira baixou jamais pediram desculpas, jamais devolveram salário, jamais foram processadas. Saíram do escândalo mais ricas, mais poderosas, mais blindadas, e agora retornam ao palco com a mesma expressão solene de quem nunca pisou na bola. O cidadão, esse coitado, é convidado a fingir amnésia e a aplaudir de pé enquanto a conta chega por baixo, na forma de mais impostos, mais regulação, mais cerceamento de viagens, comércio e liberdade de imprensa em nome da saúde pública.
A tragédia real, aquela que mata gente de verdade em barracos de zinco, exigiria coisas pouco glamorosas: água potável, eletricidade, estradas, propriedade privada respeitada, comércio livre que tire o camponês da economia de subsistência. Nada disso interessa à indústria humanitária, porque resolver o problema seria fechar o negócio. O ebola é, para o aldeão congolês, doença horrível e localizada. Para o burocrata internacional, é oportunidade renovável. Para o laboratório, é planilha de receita. Para o político ocidental, é cortina de fumaça providencial quando a inflação aperta e o eleitor reclama. Cada qual cumpre o seu papel, cada qual fatura à sua maneira, e o morto serve de pano de fundo para a fotografia institucional.
Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta sobre poder e dinheiro nestes tempos sombrios. Quem paga essa nova rodada de alarmes, de fundos emergenciais, de tratados pandêmicos costurados a portas fechadas? Paga o contribuinte de Berlim, de São Paulo, de Toronto, que jamais pôs os pés na bacia do Congo e nunca decidiu coisa alguma sobre isso. E quem recebe? Recebe a casta de tecnocratas em terno cinza que já provou, sem deixar margem a dúvida, que enxerga cada vírus novo não como tragédia a conter, mas como bilhete premiado a descontar. O resto é narrativa.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.