Cinco por cento. Nem 4,8, nem 5,2. Cinco redondos, limpos, cirúrgicos. A economia da China cresceu exatamente o que o Partido Comunista Chinês precisava que ela crescesse, no exato momento em que precisava. O mundo inteiro convulsiona com uma guerra no Oriente Médio que desorganizou cadeias de suprimento, elevou o preço da energia e jogou incerteza sobre o comércio global, mas a segunda maior economia do planeta entrega o número mágico com a precisão de quem já sabia a resposta antes de fazer a prova. Coincidência fascinante, não é mesmo? Quando um aluno tira sempre a mesma nota, independentemente da dificuldade do exame, o professor deveria desconfiar. Mas os analistas de mercado, esses eternos repetidores de press release, abrem o champanhe e publicam relatórios otimistas.
A pergunta que ninguém faz é a mais elementar de todas: quem produziu esse número? O Bureau Nacional de Estatísticas da China, órgão subordinado ao Conselho de Estado, que por sua vez responde ao Comitê Central do Partido. É como pedir ao réu que audite a própria ficha criminal. As províncias chinesas têm um histórico documentado de inflar dados locais para agradar Pequim, a ponto de a soma dos PIBs provinciais superar sistematicamente o PIB nacional por anos a fio, até o governo central resolver "corrigir" a metodologia. Em qualquer empresa do mundo, isso se chama fraude contábil. Na China, chama-se planejamento quinquenal.
Sigamos o dinheiro, porque ele nunca mente tanto quanto as estatísticas. Se a economia chinesa realmente cresceu 5%, por que o consumo interno continua anêmico? Por que o mercado imobiliário, que representa cerca de 30% do PIB real, segue em deflação crônica, com cidades-fantasma acumulando pó e dívida? Por que Pequim precisou injetar trilhões de yuans em estímulo, cortar taxas de juros e afrouxar requisitos de compra de imóveis se a máquina estava rodando tão bem? A resposta é simples: o 5% não mede a saúde da economia, mede a competência da propaganda. O PIB chinês é, antes de tudo, um instrumento político. Ele precisa ser alto o suficiente para justificar a legitimidade de um regime que não se submete a eleições, mas não alto demais a ponto de parecer inverossímil. É um número Cachinhos Dourados: sempre na temperatura certa.
O que se esconde atrás dessa cortina de cifras bonitas é um modelo que qualquer observador honesto da história reconhece: o mercantilismo turbinado por crédito estatal. O Estado chinês decide onde o capital vai, quais setores crescem, quais empresas sobrevivem e quais morrem. Isso não é mercado; é alocação política de recursos. E alocação política de recursos sempre gera desperdício monumental, porque o burocrata não responde ao consumidor, responde ao superior hierárquico. A ponte que ninguém cruza, a fábrica que produz para estoque, o prédio que ninguém habita, tudo isso entra no PIB como "investimento". Toda vez que um governo constrói uma pirâmide, o PIB sobe. A pergunta é se a pirâmide serve a alguém além do faraó.
E aqui entra a guerra no Oriente Médio, usada pelo Poder360 e por toda a imprensa como pretexto para tornar o número ainda mais impressionante: "mesmo com a guerra, a China cresceu!". Ora, a guerra no Oriente Médio, para a China, é quase uma bênção disfarçada. Pequim compra petróleo russo com desconto desde 2022, diversificou fornecedores iranianos, e o caos no Oriente Médio enfraquece seus concorrentes ocidentais mais do que a própria China. Apresentar o 5% como conquista apesar da guerra é inverter a causalidade. A China não cresceu apesar do conflito; o conflito é, em parte, irrelevante para quem já opera fora das regras do comércio ocidental. É como elogiar o guarda-chuva de quem está dentro de casa.
O mais perverso de tudo é a reverência com que o Ocidente recebe esses números. Governos que não conseguem equilibrar suas próprias contas olham para Pequim com inveja e concluem: "precisamos de mais planejamento estatal, mais intervenção, mais controle". A China exporta, junto com seus produtos baratos, a ilusão de que um punhado de burocratas pode dirigir uma economia de 1,4 bilhão de pessoas melhor do que 1,4 bilhão de decisões individuais. Os 5% de Pequim não são apenas uma estatística duvidosa; são uma arma ideológica. E o Ocidente, de joelhos diante do número bonito, nem percebe que está comprando a própria algema. Quem paga? O contribuinte chinês, que não pode questionar para onde vai seu dinheiro. Quem recebe? O Partido, que converte números em legitimidade, e a classe política ocidental, que converte o exemplo chinês em justificativa para mais poder sobre seus próprios cidadãos.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.