Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo PL de São Paulo, anuncia com pompa de quem descobriu a pólvora que terá um programa num canal conservador do YouTube. A estreia é nesta terça-feira, 14 de abril, e conta com o apoio do deputado estadual Leandro de Jesus, do PL da Bahia. A notícia é vendida como avanço da "comunicação direta com o povo", como se um parlamentar com salário de trinta e três mil reais mensais, bancado pelo erário, precisasse de mais uma plataforma para nos explicar como o mundo funciona. Conservador de quê, exatamente? Do orçamento público que lhe sustenta o palanque digital?
O fenômeno não é novo e a receita já enjoa. Políticos profissionais que passaram a vida inteira dentro da máquina estatal descobrem, a cada ciclo eleitoral, que precisam parecer outsiders. Montam canais, podcasts, lives, programas com cenário bonito e iluminação de estúdio, tudo para vender a imagem de rebeldes contra o sistema que lhes paga o salário, o plano de saúde, a aposentadoria vitalícia e o auxílio-paletó. É o equivalente moderno do nobre que vestia roupas de camponês para brincar de pastor em Versalhes: a fantasia muda, o privilégio permanece intacto.
Sigamos a trilha do dinheiro, que é onde as coisas ficam interessantes. Um deputado federal custa ao contribuinte brasileiro algo em torno de dois milhões de reais por ano, somando salário, cota parlamentar, assessores, passagens aéreas e demais penduricalhos. Esse mesmo deputado agora dedica tempo, energia e capital político para produzir conteúdo audiovisual. A pergunta que nenhum jornalista parece disposto a fazer é elementar: o programa é financiado com recursos próprios, com dinheiro de apoiadores, com verba parlamentar disfarçada de "comunicação institucional", ou com alguma combinação criativa dessas fontes? Quem são os patrocinadores? Qual canal hospeda, quem é o dono, qual o modelo de receita? Quando a resposta não vem espontaneamente, é porque alguém não quer que você a encontre.
Há ainda a questão do apoio de Leandro de Jesus, deputado estadual baiano que empresta seu nome e sua base ao lançamento. Em política, ninguém empresta nada de graça. Todo apoio público é uma transação, e toda transação tem um preço que será cobrado depois, longe das câmeras. A aliança entre um federal de São Paulo e um estadual da Bahia não é camaradagem ideológica; é cálculo de expansão territorial, construção de rede de influência e posicionamento para a próxima eleição. O conservadorismo aqui é meramente estético, uma grife colada sobre a velha e conhecida lógica do poder: acumular aliados, distribuir cargos, consolidar feudos.
O que deveria alarmar o cidadão que paga impostos não é a existência do programa em si, pois qualquer um tem direito de falar o que quiser numa plataforma privada. O que alarma é a confusão deliberada entre mandato público e carreira midiática. O sujeito foi eleito para legislar, para fiscalizar o Executivo, para representar o eleitor na Câmara dos Deputados. Se o que ele realmente quer é ser apresentador de televisão, que renuncie ao mandato, abra mão do salário público e vá competir no mercado como qualquer outro comunicador. Mas isso, claro, jamais acontecerá, porque a graça do arranjo é justamente acumular: o poder do cargo, a visibilidade da mídia e o dinheiro do contribuinte, tudo ao mesmo tempo, sem que ninguém precise prestar contas a ninguém. O conservadorismo de YouTube é, no fim das contas, apenas mais um produto de marketing político embalado em linguagem de rebeldia, vendido por homens que jamais viveram um dia sequer fora da teta do Estado. Quem paga é você. Quem recebe, você já sabe.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.