O roteiro é conhecido, quase entediante de tão repetido. Um ex-parlamentar aparece no radar da Polícia Federal por supostamente ter recebido dinheiro de um fundo orbitando o universo de Daniel Vorcaro, banqueiro do Master, e a defesa vem com a frase mais previsível do manual: "a história não se sustenta e é tosca". Toda vez que alguém usa o adjetivo "tosco" para descrever a própria denúncia, vale ligar o radar. É como o ladrão que entra no comércio reclamando do preço para disfarçar o furto. Quanto mais espalhafatosa a indignação verbal, mais cuidadosamente costurado costuma estar o esquema por baixo do paletó.

Vamos ao que interessa, porque ofensa moral não move investigação, dinheiro sim. O Master é aquele banco que virou estrela de novela do mercado financeiro nos últimos meses, cortejado por fundos públicos, salvado por arranjos heterodoxos, sustentado por títulos que ninguém quer comprar pelo preço que o emissor jura valer. Em torno dele orbita uma constelação de fundos, gestoras, intermediários e operadores políticos que ninguém soube explicar direito de onde vieram nem para onde vão. E quando essa fauna toda começa a aparecer no extrato de ex-parlamentares, a coincidência deixa de ser coincidência e vira padrão.

A pergunta que ninguém da imprensa palaciana faz é simples: quem paga e quem recebe? Banqueiro privado não distribui dinheiro por filantropia, fundo de investimento não faz transferência por afeto, e parlamentar não recebe valores de empresa regulada sem que algo, em algum momento, tenha sido pedido em troca. A relação entre o sistema financeiro e o poder político no Brasil opera há décadas pelo mesmo princípio elementar do escambo: você me dá voto, regulação favorável, projeto engavetado, comissão amiga, e eu te dou liquidez, doação oficial, doação não oficial, palestra cara, consultoria fantasma. Os romanos chamavam isso de clientela e instituíram como pilar da república. Nós chamamos de democracia e fingimos que é novidade.

A defesa do ex-deputado se apoia no argumento da implausibilidade. "Tosca demais para ser verdade". Mas o esquema verdadeiramente sofisticado raramente é o que aparece nos autos; o que aparece é justamente o tosco, o mal executado, o flagrado por descuido. O crime perfeito não vira processo, vira balanço auditado. Quem cai na PF caiu porque foi desleixado, não porque foi inocente. E a história recente do Brasil é um cemitério de políticos que juraram inocência com a mesma firmeza com que assinavam, dias depois, a delação premiada. A negativa enfática é etapa protocolar, não prova de nada.

Mais interessante que o réu, no entanto, é o cenário. O Master virou o caso emblemático de como o sistema financeiro brasileiro se sustenta na promiscuidade entre balanços contábeis e decisões políticas. Fundos públicos cogitados para comprar o banco, fundos privados cogitados para irrigar políticos, autoridades cogitando salvamentos com dinheiro de terceiros que jamais foram consultados. O contribuinte, esse personagem mudo da farsa, aparece sempre no final, segurando a conta de um banquete que não comeu. Imposto pago para sustentar resgate de banco que financiou político que votou lei que beneficiou banco. O ciclo se fecha com a precisão de um relógio suíço, e o relógio é seu.

Então fica a pergunta original, a única que importa, a que devolve qualquer notícia ao seu eixo verdadeiro: quem paga e quem recebe? Paga quem trabalha, recebe quem opera. Paga o sujeito que vê 30% do salário evaporar antes de cair na conta, recebe o operador que transita entre o banco e o gabinete com a desenvoltura de quem mora nos dois. A PF apura, o ex-deputado nega, a imprensa relata, e a engrenagem segue girando porque o desenho da engrenagem foi feito justamente para girar assim. Tosca é a história, sim. Tosca como o sistema inteiro que a produziu.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.