Em março deste ano, o ocupante do Palácio da Cidade resolveu que administrar a segunda metrópole do país já não cabia na agenda. Largou o cargo para o qual foi eleito, vestiu a camisa de pré-candidato ao governo estadual e, nesta sexta-feira, recebeu do Instituto Paraná Pesquisas o carimbo de favorito absoluto no primeiro turno de 2026. Traduzindo em português claro: o sujeito abandonou o contrato com o eleitor carioca no meio do jogo e, em vez de levar cartão vermelho, ganhou faixa de capitão para o campeonato seguinte. É a política brasileira funcionando exatamente como foi desenhada para funcionar, ou seja, premiando quem trata o mandato como degrau de escada rolante.
Convém lembrar uma distinção elementar que a classe política adora embaralhar. Contrato é contrato. Quando alguém pede voto para administrar uma cidade por quatro anos, assumiu compromisso com quem pagou a conta, isto é, o contribuinte que financia salário, gabinete, assessoria, carro oficial, segurança pessoal e a extensa folha de penduricalhos que transformam o cargo eletivo em condomínio de luxo. Renunciar no meio do mandato para disputar outro posto é, na essência moral, calote. No mundo privado, quem quebra contrato paga multa. No mundo público, quem quebra contrato recebe pesquisa favorável e manchete elogiosa. A assimetria não é acidente, é o próprio modelo de negócio.
E aqui a coisa fica mais saborosa, porque quem paga essa brincadeira toda não é o pré-candidato, nem o instituto de pesquisa, nem o marqueteiro que já está reservando hotel em Copacabana. Quem paga é o mesmo cidadão de sempre, aquele que acorda às cinco da manhã, pega dois ônibus, engole buraco na rua, escola caindo aos pedaços, hospital sem gaze, e ainda assume o ônus de bancar uma nova eleição suplementar, transição administrativa, gabinete de transição, equipe de transição da transição. O contribuinte é o trouxa universal dessa engenharia, o personagem que financia a própria humilhação e ainda é convocado a aplaudir.
A tese de que o homem é favorito porque fez boa gestão merece ser passada pela peneira da lógica, não da propaganda. Se a administração foi tão excepcional assim, por que então a pressa em abandoná-la antes do prazo? Ou o trabalho estava completo, e nesse caso sobrou tempo ocioso pago pelo carioca, ou o trabalho estava incompleto, e nesse caso o abandono é confissão de infidelidade ao eleitor. Não há terceira saída. Quem tenta construir uma terceira saída está vendendo narrativa, e narrativa, como se sabe, é o verniz que cobre a madeira podre da realidade. As coisas são o que são, não o que o departamento de marketing decreta que sejam.
Repare também no fenômeno cultural subjacente, porque toda eleição é antes de tudo um diagnóstico do eleitorado. O carioca conhece a ficha, viu o filme, comprou o ingresso duas vezes, e agora se prepara para comprar a terceira sessão do mesmo longa. A pesquisa não revela virtude do candidato, revela resignação do povo. É o síndrome do prisioneiro que se apaixona pelo carcereiro, versão tropical, com acarajé e marchinha de bloco. Quando a plateia bate palma para quem a abandonou, o problema deixou de ser o palco e passou a ser a poltrona. Governante ruim se troca em quatro anos. Eleitor que premia governante ruim se perpetua por gerações.
O que virá depois da eventual vitória ninguém precisa de bola de cristal para prever. Mais secretarias, mais cargos comissionados, mais convênios, mais emendas carimbadas, mais obra inaugurada duas vezes, mais imposto disfarçado de taxa, mais taxa disfarçada de contribuição, mais contribuição disfarçada de solidariedade. O Rio de Janeiro, que já pagou caro por décadas de laboratório político, se prepara para bancar mais uma temporada do mesmo espetáculo, com elenco conhecido, roteiro decorado e ingresso cobrado à força via folha de pagamento. No fim das contas, a pergunta que interessa continua sendo a de sempre, a única que a crônica oficial se recusa a fazer. Quem paga essa conta? O mesmo de sempre. Quem recebe? Também o mesmo de sempre. Mudam os nomes nas placas, não muda o sentido do fluxo.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.