Setenta e oito por cento. O número desceu da Paraná Pesquisas como tábua sagrada, entrevistas colhidas entre 25 e 28 de maio, margem de erro de 3,5 pontos percentuais, e a cidade inteira foi convidada a ajoelhar diante da estatística. Eduardo Pimentel, prefeito recém empossado de uma capital com orçamento bilionário, vira da noite para o dia o queridinho dos curitibanos. Ocorre que aprovação popular nos primeiros meses de mandato é como elogio de sogra em festa de noivado: barato, abundante e sem nenhuma relação com a qualidade do casamento que virá.

Convém lembrar a regra antiga das cortes: todo príncipe novo é amado enquanto distribui pão e adia o imposto. Pimentel ainda não precisou cortar nada, ainda não enfrentou greve de garis, ainda não explicou aumento de IPTU, ainda não foi obrigado a escolher entre a creche do bairro pobre e o viaduto do bairro rico. Vive a lua de mel orçamentária herdada do antecessor, gasta o que outro arrecadou, inaugura o que outro contratou, e a plateia, agradecida, confunde gentileza com competência. É o velho truque do herdeiro pródigo que recebe os elogios da fortuna construída pelo avô.

Vale a pergunta que ninguém faz nas redações: quem encomenda essas pesquisas, quem paga, e a quem servem os números? Instituto algum entrevista mil pessoas por filantropia. Pesquisa de popularidade em começo de mandato é instrumento de governo, não fotografia da realidade. Serve para blindar o gestor contra críticas futuras, para intimidar vereador de oposição, para amaciar o terreno antes do reajuste tarifário que já está sendo cozinhado na Secretaria da Fazenda. O contribuinte curitibano, esse coitado, financia a própria sedação.

Há ainda o detalhe lógico que os manchetistas fingem não enxergar. Aprovação medida em maio é aprovação de quem ainda não sentiu no bolso a decisão tomada em abril. A máquina pública trabalha com defasagem cruel: o erro de hoje vira buraco no asfalto em seis meses, vira fila no posto de saúde em um ano, vira dívida consolidada em dois. Quando o eleitor descobrir que aplaudiu o incendiário achando que era bombeiro, a pesquisa já terá cumprido sua função, e o instituto já terá recebido o próximo contrato.

O que se vende como termômetro democrático é, na verdade, anestesia. Setenta e oito por cento aprovam o quê, exatamente? A gestão do lixo? A política habitacional? O contrato de iluminação pública? Ou aprovam a sensação genérica de que o sujeito parece simpático no telejornal? Democracia reduzida a índice de simpatia é democracia castrada, porque transforma o cidadão em torcedor e o governante em celebridade. E celebridade, como se sabe, não responde por nada além da própria imagem.

Fica o conselho impopular: desconfie sempre do aplauso unânime, especialmente quando vem cedo demais e medido por quem cobra para medir. Os 78% de hoje são o álibi dos 22% que pagarão a conta amanhã, quando o reajuste chegar, quando a obra atrasar, quando o orçamento secreto da câmara municipal vier à tona. Aprovação popular é a moeda mais inflacionária que existe: imprime-se fácil, gasta-se rápido, e no dia do acerto ninguém sabe explicar para onde foi o valor.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.