O parlamentar autoexilado em Washington resolveu presentear seus seguidores com uma obra-prima do realismo mágico digital. Numa montagem fabricada por inteligência artificial, o senador irmão aparece em dueto melódico com o presidente americano, dentro do salão oval, sob o olhar contemplativo de Lula, que figura ali como espectador involuntário da própria humilhação imaginária. Não houve evento, não houve dueto, não houve encontro. Houve algoritmo, prompt e a tecla enter. O fato concreto é que a oposição brasileira, ou aquilo que sobrou dela, abandonou a tentativa de disputar o real e migrou de vez para a fanfic.

Há algo de profundamente revelador nessa cena. O político que precisa simular vitórias com pixels é o mesmo que não consegue produzi-las no mundo concreto, aquele lugar tedioso onde se votam projetos, se constroem maiorias e se conquistam aliados de carne e osso. Em vez disso, fabrica-se o simulacro do prestígio, a alucinação visual do acesso, a miragem da relevância internacional. É a velha técnica do menino que conta na escola que tem um tio na Disney, atualizada para a era da placa de vídeo. A diferença é que o menino eventualmente cresce. O político descobriu que não precisa.

Convém perguntar quem paga essa brincadeira. O senador em questão recebe salário, verba de gabinete, assessores, passagens e diárias, tudo bancado pelo contribuinte que rala doze horas por dia para ver o terço do que produz evaporar em tributos. Esse mesmo contribuinte financia agora a infraestrutura institucional que sustenta o autor do vídeo enquanto ele se dedica à nobre missão de produzir conteúdo viral a partir de uma capital estrangeira. O mandato eletivo, que em tese deveria servir à elaboração de leis e à fiscalização do Executivo, transformou-se em pretexto remunerado para a produção de memes geopolíticos. O eleitor virou patrocinador involuntário de um canal do YouTube.

O argumento previsível virá embalado em retórica de guerra cultural: é provocação, é ironia, é resposta à hegemonia da esquerda nas redes. Pode ser. Mas se o critério para validar a conduta de um agente público passa a ser a eficácia do engajamento, então acabou de se enterrar qualquer pretensão de seriedade republicana, e o que sobra é um circo onde a única métrica é a curtida. As coisas são o que são, não o que a narrativa quer que sejam: um vídeo falso é um vídeo falso, e quem o difunde como se fosse aspiração legítima está confessando que não tem nada de verdadeiro para oferecer. Premissa, premissa, conclusão. A guilhotina lógica não perdoa.

Há ainda o detalhe deliciosamente constrangedor de envolver o presidente americano numa montagem sem autorização, como se diplomacia internacional fosse um joguinho de fantasia onde se aluga o rosto alheio para encenar afetos imaginários. Imagine a inversão: um deputado de Honduras publicando vídeo fabricado do presidente brasileiro cantando com um aliado local. O Itamaraty redigiria nota de repúdio antes do café. Aqui, a desfaçatez vem revestida de patriotismo, e o ridículo é vendido como ousadia. Toda corte decadente desenvolve esse tipo de palhaçada protocolar nos seus estertores, e a história está cheia de príncipes em exílio que se consolavam pintando batalhas que nunca venceram.

No fim, o vídeo é menos relevante pelo que mostra do que pelo que confessa. Confessa que a oposição perdeu a capacidade de construir fatos e se contenta em alucinar imagens. Confessa que o mandato virou plataforma de criação de conteúdo. Confessa que o contribuinte está pagando salário, estrutura e estadia para que se produza, em escala industrial, a substituição da política pela paródia. Quem paga é sempre o mesmo: o sujeito que trabalha. Quem recebe são os mercadores de espetáculo, da esquerda e da direita, unidos pelo único consenso verdadeiro do nosso tempo, o de que o eleitor é otário e merece ser entretido como tal.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.